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quinta-feira, 30 de agosto de 2012

100% NÃO EXISTE

Nunca fui muito bom com números. Sou capaz de errar no troco, de trocar a idade das pessoas e não lembro mais que uns oito números de telefone, alguns que nem existem mais, como o da casa em que morei nos Estado Unidos há 36 anos e o 3-6-7-9-0-9, das Persianas Columbia, que era recitado em um comercial da TV Tupi, em São Paulo, nos anos 60 do século passado. 

Três meia sete nove zero nove, isso nunca saiu da minha cabeça. Ainda vou pesquisar para tentar descobrir se as Persianas Columbia patrocinavam algum programa do qual eu era fã para isso ter ficado impregnado no meu cérebro. 

Mas de um único dado numérico eu tenho certeza, não uma certeza matemática, mas sociológica, cultural, histórica e decorrente da minha experiência depois de mais de meio século de vida: 100 por cento é uma ficção. Não existe 100% de nada, sempre fica faltando alguma coisa (ou até sobrando). É uma ilusão. 


Desde que a Vivian e eu iniciamos nossa parceria, há 11 anos, esse tópico virou recorrente em nossos bate-papos durante os deslocamentos pelo trânsito de São Paulo, quer indo para uma festa, uma balada, voltando para nossas casas, indo ao trabalho, a um hospital, a um cemitério, a um bar ou simplesmente rodando à esmo numa madrugada. "Nada é 100 por cento, Vivian". Era o desfecho de várias de nossas conversas. Passada uma década, agora ela me devolve do mesmo tamanho, sempre que me queixo da vida, "como você sempre disse, nada é 100 por cento". Praticamente virou nosso lema.

Desde 2001, nós nunca brigamos, nunca nos desentendemos. Temos uma capacidade elástica de não nos chatearmos com alguma atitude do outro. A gente não consegue ficar com raiva se o outro pisa na bola. E a gente sabe que, nem eu nem ela, somos 100%. Nós não somos nem santos nem a última bolacha do pacote.


Mas somos ombro, um do outro, de todos os nossos relacionamentos, quer amorosos (e já passamos por tantos), quer de trabalho (e já passamos por tantos), quer familiares (sempre passamos pelos mesmos) e falamos de nossos bichos e dos nossos amigos, que não são nossos amigos comuns, cada um tem os seus, e nenhum deles é 100%.

Se a gente não desabafa pessoalmente, procura contato durante a semana, por telefone, no MSN, no Facebook, pede conselho, ajuda, comenta acontecimentos.

O Kiko, por exemplo, um de nossos assuntos frequentes nos últimos 8 meses, mesmo depois de castrado, anda demarcando território, fazendo xixi fora da caixa de areia, especialmente em lugares onde, nitidamente, antes ele desafiava meu filho, e agora, ele demonstra sua revolta contra minha esposa que passou a rejeitá-lo depois do episódio anterior. A situação me angustia e a solução me apavora: devolvê-lo aos quintais de Nova Granada. Morar em um condomínio de alto padrão no centro de São Paulo é legal, mas não é 100%. Nova Granada tem suas vantagens, mas a mãe do Kiko, a Kika, morreu atropelada lá por viver solta. Entretanto, ela nunca fez xixi dentro de casa e nem na caixa de areia, pois ela não tinha uma, tinha um quintal inteiro de terra com árvores.

A Caterine quase foi atropelada na vielinha da vila onde a Vivian mora, voltando de seu banho solar diário na moita em frente da casa, e isso deixou as sobrancelhas da Vivian em carne viva: ela quase atropelou a pé e a socos o motorista, um japonês, escondido sob o aço e o vidro do carro, cerrando os dentes, sem coragem de respirar muito forte ou até pensar alto, de medo da monstra que a Vivian virou, grunhindo e explodindo. Morar numa vila como a da Vivian é o meu sonho. Mas, como tudo, tem seus problemas. 


Nada ou ninguém é 100%, tanto para menos quanto para mais. Hitler foi um monstro, que todo mundo sabe, e um artista sensível. Ele escrevia poemas, pintava quadros, apreciava música e dança. 

Vários santos, canonizados pela Igreja Católica, quando vivos, prejudicaram muita gente, fizeram maldades, mentiram, venderam indulgências, pularam a cerca, pintaram o sete. O próprio papa, alemão, não me parece flor que se cheire. O que será que ele fazia entre 1939 e 1945?

Muita gente causa ruína com a convicção de que está fazendo o bem, de que está fazendo o que julga ser o certo, como evangelizar os indígenas, livrando-os de um deus pagão e uma cultura atrasada, mas que é indispensável para a própria identidade deles há milênios. 

Ainda tem gente hoje dando dinheiro para isso, para missões de evangelização nas aldeias do Mato Grosso, da Amazônia e do continente Africano, por terem sido convencidas de que estão financiando a obra de Deus. Estão é destruindo as culturas desses povos, destruindo os próprios povos. Deus não precisa de financiamento e a obra Dele está pronta, sendo pisada pelos evangelizadores diariamente.

A Globo é a melhor TV do Brasil. E também é a pior. Depende do ponto de vista. As condições técnicas, a capacidade de deslocamento e de cobertura de qualquer acontecimento no País e no mundo, a qualidade do sinal, da imagem, do som, da dicção dos seus profissionais, são tudo motivo de nosso orgulho. Estamos no topo do mundo.

Por outro lado, a Globo usa tudo isso para deixar as pessoas burras e medíocres, para fazer programas como Zorra Total, Na Moral, BBB, Amor & Sexo, manipular a opinião pública sobre assuntos que supram seus interesses e homogenizar a gíria carioca como padrão nacional. E as outras emissoras de TV seguem o padrão ditado pela líder. 

Minha filha, de 11 anos, fala "maneiro" a torto e a direito, tal como outras crianças na mesma idade que assistem a TV. Crianças que assistem o SBT, o Chaves, ou o Pica-pau da Record, não falam "maneiro", ainda falam "legal", como as crianças soltas, das ruas, do interior do Brasil.

A homogenização é burra. A diversificação, as diferenças, o pluralismo, a diversidade, isso sim, é mais perto da perfeição. 100% é burrice. Para ficar em termos celestiais, Deus não fez uma única raça de gatos ou uma única cor de rosas ou as pessoas todas iguais. Nem Deus é 100%. A variedade é essencial à vida. Só a morte é imexível, como disse o filósofo Rogério Magri.


Nos últimos 6 anos e meio, a Vivian e eu nos encontramos quase (nada é 100%, então a gente dá uns furos) semanalmente para apresentarmos um programa de TV na internet (www.ussbrazil.com/programasao). Os cerca de 250 programas que fizemos até agora, falando com humor de séries de TV, desenhos animados e cinema podem ser revistos no youtube.com ou no vimeo.com, bastando procurar "Programa São". 

As dificuldades sempre foram grandes, mas as condições estão ficando cada fez piores. Sinto que o programa não vai chegar ao sétimo ano, no dia 10 de março de 2013, mesmo porque, o mundo acaba em dezembro, segundo os Maias. Embora uma contra-corrente de estudiosos apareceram com a versão de que o mundo não vai acabar, os maias foram mal interpretados, o calendário deles marca apenas o fim de um ciclo para 2012, aí, outro ciclo começa. Ufa, ainda bem, odiaria imaginar que tudo que foi gasto com o Itaquerão tenha sido em vão.

Mesmo assim, do jeito que está, o "Programa São" pode ter se tornado um álibi para nos vermos uma vez por semana e colocar o assunto em dia e só. Talvez tenha passado da hora de mudar. Ou de casa, ou de formato, ou de conteúdo ou de tudo. A Xuxa está morena, o Faustão está magro, o Lula está sem barba, só falta a Vivian e eu ficarmos ricos, parodiando uma frase recente que está bombando nos "trends" da internet, ou perdermos a graça. Aí, realmente, seria o fim. Cem por cento.


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