Cartoonist Ralfo ataca novamente (de tempos em tempos, ele adormece ou ressurge do limbo).
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quinta-feira, 10 de março de 2016
terça-feira, 8 de dezembro de 2015
RESPOSTAS
Uma pequena caminhada com meu filho de 6 anos, em férias escolares, até o banco, na avenida Paulista.
"Pai, como se formam os flocos de neve?" Bom, as gotas de água que estão nas nuvens lááá em cima, quando a temperatura está fria, zero grau, ao invés de caírem como chuva, congelam e caem como flocos de neve.
"Pai, por que cada floco de neve é diferente um do outro?" Onde você viu essa informação? "Num programa de TV". Bom, eu nunca vi dois flocos de neve bem de perto, mas imagino que seja como as folhas das árvores: podem ser parecidas, mas uma não é exatamente igual à outra. Também as nossas impressões digitais: com tanta gente no mundo, não existem dois dedos iguais.
Nesse instante, na subida da ladeira, um senhor me pergunta onde tem um cartório. Eu respondo que se ele continuar descendo a rua vai encontrar um do lado direito da calçada. Ele me pergunta se é longe. Eu respondo que talvez uns três quarteirões. Ele me pergunta onde fica o shopping. Eu respondo que o shopping fica no quarteirão anterior ao cartório, na calçada da direita.
Chegando no platô da Paulista: "Pai, o que é isto?", apontando para uns arcos amarelos presos ao chão. Eu respondo: é para prender bicicletas. Veja lá: a pessoa chega de bicicleta e a acorrenta nesses arcos para ninguém roubar enquanto a pessoa entra em um desses prédios.
"Pai, o que é aquele triângulo vermelho?", apontando para o objeto colocado na rua a um metro do carro parado com o pisca-alerta ligado, próximo à esquina, na rua Ministro Rocha Azevedo. Respondo: aquele triângulo, todo carro é obrigado a ter. O carro do papai tem e o carro da mamãe também. Quando o carro pára de funcionar, quando o carro "quebra", o motorista tem que colocar esse triângulo no chão perto do carro para avisar às outras pessoas. Principalmente porque ali, onde ele está parado, tem uma placa no poste com a letra "E" com um "x" vermelho por cima. Significa que é proibido um carro parar ali. Pode vir um guarda e multar. A multa é como um castigo, um castigo que custa dinheiro: tem que pagar para sair do castigo. O triângulo no chão avisa o guarda que o carro não está parado ali por fazer coisa errada, mas porque enguiçou, então o guarda não castiga.
Chegando ao banco, o número chamado na tela da sala de espera, diante dos caixas, é "meia-meia". "Pai, por que lá está escrito 66 e você falou meia-meia?" É uma maneira de falar. Você conhece número 12? Então, o número 12 também é chamado de "uma dúzia". Você tem 12 bananas, também pode falar uma dúzia de bananas. "Se eu tiver 12 balas eu posso falar uma dúzia de balas?" Pode. Pode falar uma dúzia de amigos, uma dúzia de bonecos. Então, metade de uma dúzia é meia-dúzia, que é 6. Por isso o 6 é chamado de meia. Você pode falar 6 ou meia, tanto faz.
"Pai, o que vem depois do 299? Eu só sei contar até 299". Vem o 300. E depois do 399? "Não sei." Pense: qua... "Quatrocentos?" Isso. E depois do 499? "Quinhentos?" É, e assim por diante, tem o 599, o 699, o 799, o 899. O que vem depois do 999? "Aí eu não sei." Mil. "Nossa, é muito!"
Na descida da ladeira um homem, andando, me pergunta onde fica a rua Itapeva. Eu respondi que não era perto dali, o mais prático seria ele subir até a Paulista, que era plana, e continuar andando para a esquerda. Ele me perguntou se ele virasse a próxima à esquerda se não dava caminho. Eu respondi que não, ele sairia na rua Peixoto Gomide que, subindo, iria até a Paulista. A rua Itapeva ficava do outro lado da avenida 9 de Julho, depois do MASP. Era mais prático ele ir até a Paulista e passar por cima da avenida 9 de Julho e, depois do MASP, ele viraria à esquerda. O homem me perguntou o que era o MASP. Eu respondi: é o Museu de Artes de São Paulo, é um caixotão vermelho na Paulista, não tem erro.
Toda essa caminhada não levou mais que vinte minutos. Eu dou informação na rua o tempo todo, em todo lugar que eu vou. No mínimo, informo as horas, sempre alguém pergunta. Já orientei até policial militar perdido sobre onde era a rua Santa Ifigênia. No supermercado, me pedem opinião sobre cortes de carne, ração de gatos, já dei minha opinião sobre suco de laranja em inglês, para um estrangeiro. Ou eu tenho cara de quem sabe tudo ou de alguém em quem se pode confiar.
Recentemente, recebi a notícia, no Facebook, que uma pessoa que eu conhecia, faleceu. Era madrugada e eu comecei a chorar. Minha mulher, ao meu lado na cama, perguntou o que havia acontecido. Eu falei "morreu uma cara". Ela me peguntou se era alguém com quem eu tinha muita amizade. Bom, eu respondi que era alguém que eu conheci há 31 anos e que eu não via há, pelo menos, 28. Nem deu tempo de dizer que o tinha adicionado aos amigos do Face este ano, ela já estava dormindo de novo. Nisso, uma mensagem da Vivian no Face: "você está triste?" Eu disse: "tô, como você sabia?" Ela mora lá na Serra da Cantareira, longe à beça. Ela disse: "eu estava dormindo e acordei com uma sensação de que você estava triste. Conta aí. Se eu não responder nada é porque eu dormi de novo".
Não deu outra. Eu contei tudo e...cri cri cri cri. Ela só voltou ao papo no dia seguinte. Mas eu vou contar pra você, leitor. Tente não dormir. Se dormir, continue lendo depois. Please.
Em 1984 eu estudava Jornalismo em Ribeirão Preto, numa faculdade particular. Minha namorada estudava Letras na Universidade Estadual de Londrina. Eu ouvi falar que, de vez em quando, surgia na UEL oferta de vagas para transferência de outras faculdades. Minha namorada disse: "mas é muito raro". Mal fiquei o primeiro semestre daquele ano em Ribeirão Preto, surgiu vaga de transferência para o curso de Jornalismo em Londrina, duas únicas vagas. Minha namorada disse: "vai ser difícil uma ser sua". Eu me candidatei. Resultado: me deram a vaga.
Então, em julho daquele ano (ambos estávamos de férias entre São José do Rio Preto, Nova Granada e Votuporanga) eu peguei um ônibus para ir à Londrina, pela primeira vez, para acertar tudo para começar as aulas em agosto. E perguntei para ela como era o nome daquela escola de inglês onde ela estudava lá (além do curso de Letras), quem sabe eu arrumava um emprego pra custear minha vida. E ela disse: "Ah, mas é a escola mais imponente, mais rigorosa da cidade, impossível você, sem ser conhecido, arrumar emprego lá".
Já dormiu?
Chegando na rodoviária de Londrina, comprei um jornal e procurei nos classificados algum anúncio de pensão. Circulei com a caneta algumas opções. Peguei um ônibus urbano e fui na universidade primeiro, acertar o que precisasse para começar no mês seguinte. Tinha até refeitório estudantil por um valor irrisório. Aí peguei o ônibus de volta pra "cidade" ( o campus é afastado) e fui ver uma das pensões que marquei. Não fui em outra. Já gostei da primeira. Teria um quarto com duas camas e um banheiro. Eu iria compartilhar com mais alguém. Tudo bem. Saindo da pensão é que reparei que, do outro lado da rua estava a tal escola de inglês chique onde estudava minha namorada. Eu ia morar bem em frente. Era coisa mandada. Eu não podia deixar de tentar. O máximo que podia acontecer era eu levar um não.
Atravessei a rua, entrei por uma porta imponente, dois leões vermelhos de lado a lado, tinha uma moça atrás de um balcão. Me identifiquei e perguntei se, por acaso, não poderia preencher uma ficha de candidato a um emprego de professor de inglês. Ela me deu um papel e eu comecei a escrever sobre mim, ali mesmo, de pé, no balcão. Quando terminei, levantei o papel para entregar para ela, mas ela disse: "vá até aquele escritório, naquela porta atrás de você, e entregue para um homem lá". Enquanto eu estava de pé no balcão escrevendo na ficha, um homem me viu de lá daquela porta atrás de mim e fez sinal para a moça para já me mandar entrar lá quando eu terminasse de escrever.
Eu entrei no escritório. Muito elegante, decorado com fotos de viagens pelo mundo todo, dos donos da escola. O homem, sentado atrás da escrivaninha, pegou o papel que eu escrevi e começamos a conversar, tudo em português. Eu disse que, coincidentemente ia morar bem do outro lado da rua, que eu morei na Califórnia, fiz intercâmbio, dei aula de inglês em Rio Preto, em Ribeirão, filho de mãe professora de inglês etc e tal. Ele pegou o horário de aulas e já foi me atribuindo várias aulas que eu daria no período noturno. Eu de boca aberta, lá pelas tantas, perguntei: estamos falando o tempo todo em português, como é que você tem certeza que eu tenho condições de dar essas aulas aí?
Resposta: "você não ousaria ter entrado aqui se não tivesse".
E foi esse o cara que morreu. Parece que ele estava fazendo tratamento contra um câncer. Eu o adicionei como amigo no Face outro dia sem saber de nada. Depois daquele primeiro encontro, virei professor lá por algum tempo e ainda inventei um jornalzinho interno (que soube que continuou sendo feito por um ex colega do curso de Jornalismo da UEL, depois que fui embora para São Paulo). Naquele dia, peguei o ônibus de volta para São José do Rio Preto com tudo resolvido em poucas horas: faculdade, alimentação, onde morar e onde trabalhar, que, segundo minha namorada, seria impossível.
E a resposta dele nunca me saiu da cabeça. Eu tenho cara de quem sabe das coisas ou de quem se pode confiar.
Mas eu mesmo, vivo em dúvida, sem confiança. Tanto é que já casei três vezes. Já mudei de cidades. Já mudei de profissão. Solteiro? Casado? Caso outra vez? Advogado? Cartunista? Jornalista? Professor de inglês? Lojista? Guia de excursão? Professor de faculdade? Apresentador de TV? Cartunista de novo? Professor de inglês de novo? Toco violão ou okulele?
Quem é esse cara no espelho? O que ele quer comigo? Responda! Que horas são? Dormiu?
"Pai, como se formam os flocos de neve?" Bom, as gotas de água que estão nas nuvens lááá em cima, quando a temperatura está fria, zero grau, ao invés de caírem como chuva, congelam e caem como flocos de neve.
"Pai, por que cada floco de neve é diferente um do outro?" Onde você viu essa informação? "Num programa de TV". Bom, eu nunca vi dois flocos de neve bem de perto, mas imagino que seja como as folhas das árvores: podem ser parecidas, mas uma não é exatamente igual à outra. Também as nossas impressões digitais: com tanta gente no mundo, não existem dois dedos iguais.
Nesse instante, na subida da ladeira, um senhor me pergunta onde tem um cartório. Eu respondo que se ele continuar descendo a rua vai encontrar um do lado direito da calçada. Ele me pergunta se é longe. Eu respondo que talvez uns três quarteirões. Ele me pergunta onde fica o shopping. Eu respondo que o shopping fica no quarteirão anterior ao cartório, na calçada da direita.
Chegando no platô da Paulista: "Pai, o que é isto?", apontando para uns arcos amarelos presos ao chão. Eu respondo: é para prender bicicletas. Veja lá: a pessoa chega de bicicleta e a acorrenta nesses arcos para ninguém roubar enquanto a pessoa entra em um desses prédios.
"Pai, o que é aquele triângulo vermelho?", apontando para o objeto colocado na rua a um metro do carro parado com o pisca-alerta ligado, próximo à esquina, na rua Ministro Rocha Azevedo. Respondo: aquele triângulo, todo carro é obrigado a ter. O carro do papai tem e o carro da mamãe também. Quando o carro pára de funcionar, quando o carro "quebra", o motorista tem que colocar esse triângulo no chão perto do carro para avisar às outras pessoas. Principalmente porque ali, onde ele está parado, tem uma placa no poste com a letra "E" com um "x" vermelho por cima. Significa que é proibido um carro parar ali. Pode vir um guarda e multar. A multa é como um castigo, um castigo que custa dinheiro: tem que pagar para sair do castigo. O triângulo no chão avisa o guarda que o carro não está parado ali por fazer coisa errada, mas porque enguiçou, então o guarda não castiga.
Chegando ao banco, o número chamado na tela da sala de espera, diante dos caixas, é "meia-meia". "Pai, por que lá está escrito 66 e você falou meia-meia?" É uma maneira de falar. Você conhece número 12? Então, o número 12 também é chamado de "uma dúzia". Você tem 12 bananas, também pode falar uma dúzia de bananas. "Se eu tiver 12 balas eu posso falar uma dúzia de balas?" Pode. Pode falar uma dúzia de amigos, uma dúzia de bonecos. Então, metade de uma dúzia é meia-dúzia, que é 6. Por isso o 6 é chamado de meia. Você pode falar 6 ou meia, tanto faz.
"Pai, o que vem depois do 299? Eu só sei contar até 299". Vem o 300. E depois do 399? "Não sei." Pense: qua... "Quatrocentos?" Isso. E depois do 499? "Quinhentos?" É, e assim por diante, tem o 599, o 699, o 799, o 899. O que vem depois do 999? "Aí eu não sei." Mil. "Nossa, é muito!"
Na descida da ladeira um homem, andando, me pergunta onde fica a rua Itapeva. Eu respondi que não era perto dali, o mais prático seria ele subir até a Paulista, que era plana, e continuar andando para a esquerda. Ele me perguntou se ele virasse a próxima à esquerda se não dava caminho. Eu respondi que não, ele sairia na rua Peixoto Gomide que, subindo, iria até a Paulista. A rua Itapeva ficava do outro lado da avenida 9 de Julho, depois do MASP. Era mais prático ele ir até a Paulista e passar por cima da avenida 9 de Julho e, depois do MASP, ele viraria à esquerda. O homem me perguntou o que era o MASP. Eu respondi: é o Museu de Artes de São Paulo, é um caixotão vermelho na Paulista, não tem erro.
Toda essa caminhada não levou mais que vinte minutos. Eu dou informação na rua o tempo todo, em todo lugar que eu vou. No mínimo, informo as horas, sempre alguém pergunta. Já orientei até policial militar perdido sobre onde era a rua Santa Ifigênia. No supermercado, me pedem opinião sobre cortes de carne, ração de gatos, já dei minha opinião sobre suco de laranja em inglês, para um estrangeiro. Ou eu tenho cara de quem sabe tudo ou de alguém em quem se pode confiar.
Recentemente, recebi a notícia, no Facebook, que uma pessoa que eu conhecia, faleceu. Era madrugada e eu comecei a chorar. Minha mulher, ao meu lado na cama, perguntou o que havia acontecido. Eu falei "morreu uma cara". Ela me peguntou se era alguém com quem eu tinha muita amizade. Bom, eu respondi que era alguém que eu conheci há 31 anos e que eu não via há, pelo menos, 28. Nem deu tempo de dizer que o tinha adicionado aos amigos do Face este ano, ela já estava dormindo de novo. Nisso, uma mensagem da Vivian no Face: "você está triste?" Eu disse: "tô, como você sabia?" Ela mora lá na Serra da Cantareira, longe à beça. Ela disse: "eu estava dormindo e acordei com uma sensação de que você estava triste. Conta aí. Se eu não responder nada é porque eu dormi de novo".
Não deu outra. Eu contei tudo e...cri cri cri cri. Ela só voltou ao papo no dia seguinte. Mas eu vou contar pra você, leitor. Tente não dormir. Se dormir, continue lendo depois. Please.
Em 1984 eu estudava Jornalismo em Ribeirão Preto, numa faculdade particular. Minha namorada estudava Letras na Universidade Estadual de Londrina. Eu ouvi falar que, de vez em quando, surgia na UEL oferta de vagas para transferência de outras faculdades. Minha namorada disse: "mas é muito raro". Mal fiquei o primeiro semestre daquele ano em Ribeirão Preto, surgiu vaga de transferência para o curso de Jornalismo em Londrina, duas únicas vagas. Minha namorada disse: "vai ser difícil uma ser sua". Eu me candidatei. Resultado: me deram a vaga.
Então, em julho daquele ano (ambos estávamos de férias entre São José do Rio Preto, Nova Granada e Votuporanga) eu peguei um ônibus para ir à Londrina, pela primeira vez, para acertar tudo para começar as aulas em agosto. E perguntei para ela como era o nome daquela escola de inglês onde ela estudava lá (além do curso de Letras), quem sabe eu arrumava um emprego pra custear minha vida. E ela disse: "Ah, mas é a escola mais imponente, mais rigorosa da cidade, impossível você, sem ser conhecido, arrumar emprego lá".
Já dormiu?
Chegando na rodoviária de Londrina, comprei um jornal e procurei nos classificados algum anúncio de pensão. Circulei com a caneta algumas opções. Peguei um ônibus urbano e fui na universidade primeiro, acertar o que precisasse para começar no mês seguinte. Tinha até refeitório estudantil por um valor irrisório. Aí peguei o ônibus de volta pra "cidade" ( o campus é afastado) e fui ver uma das pensões que marquei. Não fui em outra. Já gostei da primeira. Teria um quarto com duas camas e um banheiro. Eu iria compartilhar com mais alguém. Tudo bem. Saindo da pensão é que reparei que, do outro lado da rua estava a tal escola de inglês chique onde estudava minha namorada. Eu ia morar bem em frente. Era coisa mandada. Eu não podia deixar de tentar. O máximo que podia acontecer era eu levar um não.
Atravessei a rua, entrei por uma porta imponente, dois leões vermelhos de lado a lado, tinha uma moça atrás de um balcão. Me identifiquei e perguntei se, por acaso, não poderia preencher uma ficha de candidato a um emprego de professor de inglês. Ela me deu um papel e eu comecei a escrever sobre mim, ali mesmo, de pé, no balcão. Quando terminei, levantei o papel para entregar para ela, mas ela disse: "vá até aquele escritório, naquela porta atrás de você, e entregue para um homem lá". Enquanto eu estava de pé no balcão escrevendo na ficha, um homem me viu de lá daquela porta atrás de mim e fez sinal para a moça para já me mandar entrar lá quando eu terminasse de escrever.
Eu entrei no escritório. Muito elegante, decorado com fotos de viagens pelo mundo todo, dos donos da escola. O homem, sentado atrás da escrivaninha, pegou o papel que eu escrevi e começamos a conversar, tudo em português. Eu disse que, coincidentemente ia morar bem do outro lado da rua, que eu morei na Califórnia, fiz intercâmbio, dei aula de inglês em Rio Preto, em Ribeirão, filho de mãe professora de inglês etc e tal. Ele pegou o horário de aulas e já foi me atribuindo várias aulas que eu daria no período noturno. Eu de boca aberta, lá pelas tantas, perguntei: estamos falando o tempo todo em português, como é que você tem certeza que eu tenho condições de dar essas aulas aí?
Resposta: "você não ousaria ter entrado aqui se não tivesse".
E foi esse o cara que morreu. Parece que ele estava fazendo tratamento contra um câncer. Eu o adicionei como amigo no Face outro dia sem saber de nada. Depois daquele primeiro encontro, virei professor lá por algum tempo e ainda inventei um jornalzinho interno (que soube que continuou sendo feito por um ex colega do curso de Jornalismo da UEL, depois que fui embora para São Paulo). Naquele dia, peguei o ônibus de volta para São José do Rio Preto com tudo resolvido em poucas horas: faculdade, alimentação, onde morar e onde trabalhar, que, segundo minha namorada, seria impossível.
E a resposta dele nunca me saiu da cabeça. Eu tenho cara de quem sabe das coisas ou de quem se pode confiar.
Mas eu mesmo, vivo em dúvida, sem confiança. Tanto é que já casei três vezes. Já mudei de cidades. Já mudei de profissão. Solteiro? Casado? Caso outra vez? Advogado? Cartunista? Jornalista? Professor de inglês? Lojista? Guia de excursão? Professor de faculdade? Apresentador de TV? Cartunista de novo? Professor de inglês de novo? Toco violão ou okulele?
Quem é esse cara no espelho? O que ele quer comigo? Responda! Que horas são? Dormiu?
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| ÊI, CADÊ O CARDÁPIO? |
domingo, 17 de maio de 2015
N.I.
No último feriado de 1º de Maio, Dia do Trabalho, fomos a Dois Córregos visitar nossos amigos Tanise e Edson e o recém nascido Erik. Durante uma parte do caminho, vimos algo estranho no céu, um dia muito claro, por volta de 4 horas da tarde.
Ao chegarmos lá, em volta de uma pizza, à noite, comentei: vimos um OVNI na estrada. Prontamente minha esposa me contestou: "como você pode afirmar, com certeza, que era VOADOR?"
Tudo bem, para poder prosseguir com meu relato, abandonei o "V". Então, vimos um ONI. Novamente, ela interceptou meu raciocínio: "como você pode ter certeza que era um OBJETO?"
Eu me senti um jornalista na época da ditadura com um censor sentado ao meu lado me impedindo de contar um história. Mas tudo bem, ainda me sobraram duas letras, N.I. (não identificado). Que bom que eu escrevo em português, veja o lado bom: se eu escrevesse na minha outra língua, inglês, de UFO (Unidentified Flying Object), só me sobraria uma letra, "U".
Quem sou eu para contestar uma cientista cética, sendo eu apenas um curioso crédulo? Ironicamente, quando o assunto é religião temos, em casa, uma situação exatamente oposta. E talvez, um dia, todos nós cheguemos à conclusão que é tudo a mesma coisa: ETs e anjos, Deus e interferência cósmica. Mas isso é assunto para outro dia. Depois de esclarecer o que é NI, vamos, finalmente, aos fatos.
Nós saímos de São Paulo pela rodovia Bandeirantes até Rio Claro, viramos à esquerda até Brotas. Foi depois de uma parada em uma lanchonete na estrada, perto de Brotas, que eu, o motorista, vi, no céu azul das 4 da tarde, uma faixa branca e reta à minha esquerda, um pouco à frente do carro.
Era como uma barra branca. Como uma lâmpada dessas fluorescentes, lá no céu, em pleno dia. Não era nuvem, não era rastro de fumaça de algum avião a jato. Muito esquisito.
Então, chamei a atenção da minha esposa, sentada no banco do passageiro ao meu lado direito, perguntei se ela estava vendo aquilo. Ela respondeu que não só estava vendo aquela faixa de luz branca à esquerda como também outra mais à direita, bem à nossa frente. Foi quando meu filho, de 6 anos, sentado no banco traseiro, disse que estava vendo uma terceira faixa lááá na frente. Verdade. Eram três.
Fiquei na dúvida se nós três não estávamos vendo algum reflexo nos vidros do carro. Mas aí, uma nuvem passou bloqueando parcialmente a nossa visão do NI. Ainda era visível, mas ficou evidente que estava acima da nuvem.
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| Imaginação existe pra gente usar, não é mesmo? Então fiquei imaginando se seriam três NIs voando - ops - se movimentando em formação triangular à nossa frente na estrada... |
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| ...ou um único NI grandão em formato de triângulo lá, acima das nuvens, nos fazendo companhia na estrada entre Brotas e Torrinha... e invisível, quer dizer, quase. |
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| Não é preciso imaginar extraterrestres para conceber um objeto voador em forma de triângulo que fique invisível: os EUA têm o Stealth. |
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| E não é um só não. Esses aí da foto acima, o F-117, está em serviço desde outubro de 1983, faz 31 anos. Uma versão um pouco mais nova, o B-2, entrou em operação em 1989, sendo que existem 21 unidades. Só tem um problema: eles não são invisíveis ao olho humano. Apenas não são detectados pelos radares. |
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| Descartado o Stealth, a imaginação não tem limites: fica valendo imaginar... |
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| ...qualquer coisa que una três riscos brilhantes no céu e faça o truque de ficar semi invisível. |
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| Procurando na internet, para ver se o que vimos no interior de São Paulo no 1º de maio, se parecia com alguma coisa já vista antes, consegui essa foto aí, tirada no dia 10 de outubro de 2011, na cidade de Pleasanton, California, EUA, à meia-noite e meia. Foi isso que vimos, só que multiplicado por três e em pleno céu azul da luz do dia. |
E isso é tudo que sei sobre o NI que vimos na estrada, à nossa frente, ligeiramente à esquerda, no dia 1/05/2015, entre Brotas e Torrinha, por volta de 16h, dia claro, céu muito azul. Depois de uns 10 minutos que viajamos "juntos", o NI se distanciou, seguindo mais rápido à frente e sumiu.
Foi o segundo NI da minha vida. Tenho outra história pra contar.
Foi em algum sábado de 1980 lá em Nova Granada. Eu não lembro o dia certo agora. A data exata está em um recorte do jornal da vizinha cidade de São José do Rio Preto, Dia e Noite (onde trabalhei como chargista diário), que traz a manchete: "Disco voador agita o sábado em Nova Granada". Juro que não fui eu quem escreveu o texto. E no texto conta que a cidade de Nhandeara (veja mapa) também teve a mesma experiência. O recorte do jornal está nos meus arquivos que estão temporariamente com o Chico Amaro lá em Londrina (PR).
O problema é que eu não sei onde eu enfiei aquele jornal, nas pilhas e pilhas de papel velho que carreguei para vários endereços para onde mudei. Já procurei isso no Google e não achei. E olha que não foi "café pequeno": foram 22 vistos por um avião inteiro e a notícia deu primeira página da Folha!! Eu fiz até charge para o Paraná Shimbun (jornal da comunidade japonesa em Londrina - que deve estar no arquivo que está com o Chico) fazendo uma relação com os 22 convocados para a Seleção Brasileira, outro assunto que ocupava os jornais na época.
Tirem suas conclusões.
sexta-feira, 20 de março de 2015
SUCESSO PROFISSIONAL = DINHEIRO?
Uma pesquisa da Universidade de Pelotas foi publicada em uma revista científica internacional, a The Lancet Global Health, na quarta-feira, 18 de março de 2015, e teve muita repercussão em páginas variadas na internet e em veículos da mídia, jornais, rádio e TV, por enquanto, já que não deu tempo das revistas semanais chegarem às bancas e às casas dos assinantes. Certamente, vão incluir também.
Qual é o assunto?
De acordo com a pesquisa, quanto mais o bebê mama, mais inteligente ele será quando adulto. As mães são incentivadas a amamentarem seus filhos o máximo que puderem para garantir o futuro deles, dois anos, três anos, enquanto tiverem leite em suas tetas.
Maravilha.
A gente já desconfiava que o leite materno fazia muito bem. Havia quem afirmasse que seria um antibiótico natural. As crianças bem amamentadas estariam menos suscetíveis a contraírem doenças. O leite materno é um colosso. A gente já concordava com isso. Agora, essa nova pesquisa científica dá mais um gás ao leite da mãe: o tempo de amamentação interfere no Q.I. Isso é importante pra chuchu.
Uau.
Só que, dependendo da publicação (eu li páginas diferentes na internet tratando da mesma notícia) era dada ênfase a mais um argumento: dizem que as crianças que mamam mais têm mais sucesso e ganham mais dinheiro quando adultas. A pesquisa afirmaria que os adultos que mamaram mais quando criança têm um renda 33% maior que os outros.
É um baita argumento.
Isso me deixou pensativo.
Uma coisa é dizer que seu filho vai ser mais inteligente, OK, outra coisa é dizer que seu filho vai ganhar mais dinheiro, vai ser um sucesso financeiro. Me parece que a ciência foi contaminada por um viés de importância capitalista, para justificar sua força ao público alvo.
Acompanhe o meu raciocínio. Eu não sou comunista. Não acho errado ganhar dinheiro. Só não acho certo atribuir à capacidade de acumular dinheiro uma virtude.
Quantas pessoas você conhece que ganham muito dinheiro sem virtude alguma? Mentem, roubam, exploram pessoas, escravizam, traficam.
Por causa do valor que se dá a quem tem dinheiro, muita gente faz qualquer coisa para tê-lo. Matam os pais.
Será que Maria amamentou por pouco tempo o menino Jesus? Suas palavras só alcançaram valor muito tempo depois que ele supostamente as disse. E essas palavras, é verdade, enriqueceram muita gente, com templos de ouro, menos ele próprio, apesar de judeu.
Mozart morreu tão pobre que foi sepultado em uma vala comum. Será que ele teve sucesso? Será que Gandhi teve sucesso? Será que Garrincha mamou pouco quando bebê? Será que van Gogh deixou uma gorda conta bancária antes de cortar a orelha e se suicidar? Será que Pepe Mujica tem um iphone?
Será que todas essas pessoas tiveram sucesso dentro de suas vocações, mesmo não tendo conseguido uma boa renda?
EU devo ter mamado muito pouco. Tanta burrice tinha que ter uma explicação científica. Nunca consegui ganhar o tal do dinheiro. Sempre fui extremamente mal remunerado. Não sei cobrar pelo que eu faço.
O bacana da ciência, muitas vezes, é confirmar uma certeza existente e levantar muitas perguntas novas.
domingo, 26 de outubro de 2014
EU SOU BRASILEIRO
Por mais óbvia que pareça a afirmação do título, só as pessoas que conviveram comigo no final dos anos 90 podem entender a profundidade dessa declaração. Eu renegava minha origem, frequentemente dizendo "esse país de vocês" para meus amigos da roda, quando comentava as notícias do dia. Tinha vergonha de ser brasileiro, não me sentia brasileiro, não queria fazer parte daquilo, mesmo já tendo quase 40 anos de Brasil.
Ultimamente, fui pouco a pouco me encontrando com o Brasil. Algumas pessoas do meu relacionamento, que me conheceram antes, passaram a caçoar de mim, acham que eu fiquei doido e me criticam. E não entendem o que mudou em mim.
Nos últimos 12 anos tenho sentido orgulho do Brasil. Talvez porque eu não leia Veja nem assista Globo. E tenho ido ao Ceará. Lá, todo mundo me conta como (quase) tudo melhorou. Nunca tinha visto o Brasil daquele ângulo. O Brasil melhorou tanto para aqueles lados que até o crime organizado foi atraído para lá, atraído pela recente fartura. Os nordestino diminuiram o ritmo de migração para o Sudeste. Vale a pena ficar. E os nordestinos que migraram antes, estão voltando para o Nordeste, porque agora tem perspectiva de vida lá. O Brasil equilibrou! Saiu da fome, saiu da vergonha, saiu do subdesenvolvimento, pagou o FMI!! Quantas charges eu fiz sobre a dívida do Brasil com o FMI, anos a fio, nos anos 80 e 90. E agora o Brasil empresta dinheiro ao FMI para que repasse a outros países que precisarem. Fantástico!
Lá na Nova Zelândia, em 2008, a moça do caixa de uma loja me perguntou: "o que está acontecendo que, de uns tempos para cá, tenho visto tantos brasileiros aqui? Antes eu nunca tinha visto brasileiros na Nova Zelândia?" Como é que eu tive condições de ir até lá?!
Para os brasileiros que têm casa em Miami ou apartamento em Nova York ou vão esquiar em Aspen todos os anos, o Brasil piorou muito. Agora eles correm o risco de trombar com o porteiro do prédio ou a empregada doméstica no mesmo vôo para Paris. Como disse aquela professora da PUC, os aeroportos estão parecendo estações rodoviárias. Uma gente pedante, asquerosa, que não se conforma em compartilhar o bem estar.
O Brasil se tornou a 6ª economia do mundo, fundou um banco de desenvolvimento com os BRICS. Quando o mundo inteiro quebrou nas crises, Estados Unidos, países da Europa, até Japão, empresas fechando, desemprego em massa, Espanha, Grécia, Portugal falindo, o Brasil segurou todas! A inflação controlada e a taxa de desemprego é a mais baixa de toda a história!
Um número astronômico de escolas técnicas e universidades federais foram construídas em todo o Brasil, mais de 400. Muitos estudantes brasileiros tiveram a chance de fazer intercâmbio no exterior, no programa Ciência Sem Fronteiras. Eu tenho alunos de faculdade que me dizem: "professor, eu sou o primeiro da minha família a fazer faculdade, minha mãe está orgulhosa de mim", beneficiados pelo ProUni, pelo FIES. Eu fico emocionado, os olhos enchem de lágrimas.
E a saúde?
Minha esposa, no início do ano, nas últimas semanas da gravidez, precisava tomar a vacina por causa do rh negativo. Ela ligou para clínicas particulares e verificou que o preço variava entre R$ 300 e R$ 400. Ela também ficou sabendo que a vacina era de graça no posto de saúde. Ela titubeou em se sujeitar, afinal, a mídia só fala que a saúde pública é um caos, filas intermináveis, uma bagunça, mas, resolveu arriscar, contrariando a propaganda negativa. Ligou para um telefone para obter informações e fomos ao pronto socorro mais próximo de casa que dispunha da vacina. Nos preparamos para enfrentarmos uma cena de um quadro do Picasso.
Para nossa surpresa e admiração, só o que ela precisou foi fazer um cartão de cadastramento do SUS, sem fila, sem espera, e tomou a vacina, grátis, no posto da rua Vitorino Camilo, Santa Cecília.
Por sua vez, o Dudu está com todas as vacinas em dia no cartão de vacinação dele, de quase 9 meses de vida, todas sem pagar nada, obtidas no posto da rua Almirante Marques Leão, Bela Vista. É só pegar uma senha e esperar sentado. E as pessoas são gentis e educadas.
Meu outro filho, que agora tem quase 6 anos, tomou todas as vacinas da época dele em clínicas particulares, minha filha, hoje com quase 14 anos, também, pagando entre R$ 150 e R$ 200 cada, inclusive porque muitas delas o SUS não tinha. Agora tem todas.
Por que a mídia não divulga isso? Por que a mídia só mete o pau no que está ruim e não dá uma linha para elogiar quando melhora ou está bom?
Eu tenho minhas suspeitas. Além, obviamente, da mídia fazer oposição a qualquer governo do PT e só dar destaque ao que pode ser criticado, a mídia mantém a população aterrorizada sobre a saúde pública para que corra para os planos de saúde privados e laboratórios que são os anunciantes, os patrocinadores da mídia. Então a mídia não serve ao povo, serve ao dinheiro, ao capital.
Quando eu conto isso, algumas pessoas não se conformam com o meu testemunho pessoal de que o Brasil está funcionando, está melhorando, e retrucam: "mas e aquelas reportagens que passam na TV de pacientes morrendo em macas, sem atendimento em hospitais, a mídia inventa aquilo?" Eu respondo que a verdade deve ser mostrada: o que é ruim e o que é bom. Os problemas de saúde do País não foram criados neste governo. Não dá para consertar 500 anos em 12. É preciso ter paciência e reconhecer quando há melhora, para que continue, para melhorar mais.
Se a mídia mostrar que está melhorando, as pessoas perdem o interesse nos planos de saúde, então pressionam a mídia para só mostrar tragédia. E a mídia consegue manter as pessoas acostumadas à tragédia. As pessoas foram condicionadas a duvidar de notícia boa, por falta de costume. Aceitam a tragédia como normal e se resignaram a dar anos de lucros aos planos de saúde (como é o padrão dos Estados Unidos, onde nem existe previdência pública universal, ninguém se aposenta se não tiver guardado seu próprio sustento para a velhice), como caminho mais fácil, manipulados pela mídia, ao invés de perseguir um ideal mais canadense, inglês, sueco, francês...
Aí meu amigos me desafiam com o assunto corrupção.
Pela primeira vez o Brasil tem políticos presos: foram julgados, condenados e estão cumprindo pena durante o próprio governo a que serviam. Inédito! A Policia Federal independente e atuante e o Procurador Geral da República não engavetando nada, apurando tudo. Sensacional. As instituições funcionando com autonomia!
Ao contrário de muita gente que acha que o Brasil está pior por causa de escândalos, eu acho o oposto. Escândalos sempre existiram, em todos os governos, mas ou não recebiam destaque pela mídia conivente ou não eram investigados até o fim, varridos para debaixo do tapete, passando a falsa sensação de que agora, quando tudo é trazido a público, é que está pior.
E, sem entrar no mérito, os que estão presos foram considerados culpados de corrupção ativa. Eu estou esperando o processo de investigação e julgamento dos corruptos passivos, aqueles que receberam a propina, não só dos que pagaram. Como também estou esperando o indiciamento e julgamento dos parlamentares que receberam dinheiro para aprovarem a mudança na Constituição para garantir a reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso. E também o julgamento dos corruptores ativos desse caso. E também estou esperando a apuração das denúncias de corrupção nos trens e metrô de São Paulo. Será que vai ter o mesmo destaque na Veja?
E um ponto que é fundamental para mim é a continuidade dos trabalhos da Comissão da Verdade. O Brasil ainda está muito atrás da Argentina e do Chile, que colocaram seus militares assassinos para pagarem pelo que fizeram durante suas ditaduras. O Brasil precisa passar seu passado a limpo e virar a página da história. No mínimo, para que a geração shoppingcenter, por ignorância e convenientemente desprovida de memória histórica, não saia por aí pedindo a volta dos militares. Precisa entrar no currículo escolar a história de Rubens Paiva, Vlado Herzog, Stuart e Hildegard Angel, entre outros, como uma vacina, para evitar que a doença se repita.
O Clube Militar fez acordo de apoio ao Aécio em troca de colocar uma pedra em cima de tudo. Este argumento, acima de todos os outros, me deu a certeza da minha opção. Somente a Dilma, que foi presa e torturada por três anos, que sentiu na pele, nossa guerreira, lutou por nós todos que estamos aqui hoje, inclusive pelos playboys que se divertiam surfando em Ipanema, somente ela tem compromisso com o que eu considero de suma importância, mais do que qualquer outra coisa, pelo futuro do Brasil. Pelas futuras gerações de brasileiros.
Eu confesso, já mexi com droga na vida: votei no FHC para o Senado, em 1978, ainda pelo MDB. Votei no Serra para a Prefeitura de São Paulo. E votei no Alckmin em 2010. Mas eu parei. No primeiro turno da eleição presidencial de 2010 eu ainda votei na Marina, pois acreditava no PV. Votei no Aloysio Nunes, meu conterrâneo, para o senado, por quem eu tenho admiração, mas que recentemente andou abrindo a boca para falar muita bobagem. Enfim, eu não sou petista, nem lulista. Nesta eleição, além do PT, eu também votei em quem acredito do PMDB e do PSB. Nem afirmo que nunca mais votarei em alguém do PSDB. Mas está difícil. Só no Serra é que nunca mais, uma pessoa sem palavra e sem caráter. .
E no Aécio nunca. Ele não devia usar assim o sobrenome do avô materno. O pai dele, Aécio Cunha, foi deputado federal pela ARENA, o partido dos ditadores militares, quando a família morava no Rio de Janeiro. Aécio, aos 17 anos, foi empregado pelo gabinete do papai em Brasília sem nunca ter ido lá, estudava no Rio. Aos 25 anos, foi nomeado por um titio para o cargo de DIRETOR DE LOTERIAS da Caixa Econômica Federal! Como governador de Minas Gerais, nomeou o papai para um cargo na CEMIG e a irmã mais velha para administrar a distribuição de verbas públicas de publicidade para amigos e as três rádios e o jornal que a família tem no estado. Nada do que eu estou escrevendo aqui é segredo nem invenção minha. São fatos. Ele perdeu a eleição em Minas. Existem outras denúncias muito graves contra ele, mas de ordem pessoal, não administrativa, e eu me abstenho. Quem se interessar em saber mais, é só procurar a informação nos lugares certos. A internet está cheia de opções. A mídia, poucas.
Se eu já vinha experimentando essa sensação de brasilidade inédita na minha vida nos últimos anos, o que causou a minha revolta definitiva foi aquela torcida no Itaquerão, diante de câmeras do mundo inteiro, na abertura da Copa, gritando impropérios de baixo calão contra a presidente* do meu País. Eu me senti agredido. Foi como se tivessem xingado minha mãe. A partir dali, se eu ainda tinha alguma dúvida, eu fechei com ela. Escolhi meu lado. Não quero fazer parte daquela gente privilegiada que só torce contra o próprio País.
Naquele dia, a manchete da Folha de S. Paulo foi "Começa a Copa com a Seleção em Alta e a Organização em Dúvida". O Arnaldo Jabor, no comentário do Jornal da Globo, resumiu a aposta da mídia em sua voz: "o Brasil vai mostrar sua incompetência para o mundo". Xô, urubus! O que se viu foi o oposto. O Brasil deu show, a seleção deu vexame. Não houve caos nos aeroportos, não caiu laje de estádio em cima da cabeça de nenhum torcedor estrangeiro, não faltaram hotéis, não faltou futebol (mesmo que proporcionado pela Alemanha e pela Holanda). Por que tanta torcida negativa? Por que tanta gente torce contra o meu País? Eu sou brasileiro, e eles?
Ele fizeram "manifestação" na avenida Faria Lima, em seus ternos Armani, suas camisas Polo e Lacoste, suas bolsas Louis Vutton, perfume Channel, dentro de seus reluzentes carros importados ou, pasmem, de táxi!! Única no mundo. Foi destaque, com espanto, na imprensa dos países onde eles preferem contribuir com impostos. No intervalo do último debate, na Globo, na sexta-feira, fui obrigado a assistir à chamadas da programação da emissora que aboli da minha rotina e vi a Christiane Pelajo anunciar as notícias principais do Jornal da Globo, que seria a próxima atração. Pelajo destacou os gastos dos brasileiros em compras no exterior, que nunca foram tão grandes, nunca, nunquinha, feitas por essa gente miserável que passa tanta necessidade aqui e só reclama que o Brasil está em crise.
Crise de decência. .
Que asco.
Tem muita coisa ainda a ser feita, claro. O Brasil ainda precisa melhorar muito. E pode copiar as boas ideias de outros países, com as devidas adaptações à nossa realidade. O Canadá, por exemplo, tem muita coisa melhor que o Brasil. Mas tem uma população que é a metade da população apenas do estado de São Paulo e seu PIB foi superado pelo do Brasil faz tempo. Então não dá para pegar o que eles fazem lá e trazer igual e pronto. A Suécia tem ótimas experiências. Mas o território do país é do tamanho de Goiás. Então as soluções precisam ser ajustadas às nossas dimensões. É preciso tempo para desenroscar todos os enroscos do Brasil e dar um voto de confiança a quem tem demonstrado trilhar o caminho do bem.
O que não é decente é a mídia passar décadas bombardeando os brasileiros com propaganda de que "o Estado não presta, tudo que é estatal é lento, ineficiente, atrasado e corrupto e é melhor entregar tudo para a iniciativa privada"(ter lucro e distribuir vantagens para os próprios donos da mídia). Chegamos ao cúmulo, em São Paulo, de privatizarem a água que meus filhos bebem, a água do meu banho! Isso foi o estopim da eleição do Evo Morales na Bolívia há três mandatos. Pois fizeram isso em São Paulo e os paulistas ignorantes ainda não acordaram. Depois que as ações da SABESP foram negociadas em Nova York, 49% da água que deveria sair da minha torneira pertence a estrangeiros, que ficam com os lucros da empresa ao invés dos recursos serem usados para melhorar o abastecimento. A minha sede dá lucro para estrangeiros. .
Antes de chegarmos neste estágio, fomos aplaudindo o PSDB ir vendendo tudo, o Banespa, a Telesp, a Vale, as estradas paulistas. Fomos convencidos de que era para o nosso bem. Bem de quem? Santander e Vivo (Telefónica) têm as maiores queixas de usuários no PROCOM. Vamos reclamar agora para o rei da Espanha? E o dinheiro conseguido com essas vendas? Mantiveram a USP? O Museu do Ipiranga? A TV Cultura? Foi investido na melhora da vida dos paulistas? Leia o livro "A Privataria Tucana".
As estradas paulistas são lindas. E caras! São Paulo tenta imitar a Califórnia (onde morei, estudei e voltei uma dúzia de vezes) mas não: na Califórnia estrada nenhuma tem pedágio. Se há uma coisa que os americanos dão valor é a tal liberdade de ir e vir. A única estrada pedagiada, que já usei nos Estados Unidos, foi na Flórida, entre Miami e Orlando. Deve ser influência da quantidade de faustões e xuxas que têm casas lá. Mas, mesmo nesse caso, é dada uma alternativa à liberdade: uma outra estrada, não pedagiada, mais estreita e congestionada de tráfego de caminhões, corre paralelamente à "Florida Turnpike", indo para o mesmo lugar. Aqui não. A gente paga o IPVA todo ano e tem de pagar de novo para dirigir o carro em cada estrada. E fomos convencidos a achar isso maravilhoso. Como deu certo, o povo aguenta sem reclamar, privatizaram a água. E o povo paulista adora e vota.
Essa "campanha" pela iniciativa privada foi desenvolvida por muitos anos, com a conivência da mídia, em todos os setores. Na educação, por exemplo. Eu estudei em colégio estadual. Meus pais também. Naquela época, nos colégios estaduais estudava quem queria qualidade. Quem não tirasse nota era reprovado. Tenho um amigo que repetiu duas vezes o mesmo ano. Fez de novo até estar em condições. E não foi para uma escola particular mais fácil. Hoje ele é médico, e dos bons.
Minha mãe reprovou muita gente. Os que ela aprovou, depois de "suarem a camisa", costumam visita-lá, agora octogenária e aposentada, para agradecer o que ela fez por eles, por seus futuros, por suas profissões. Quem queria moleza, queria só passar de ano sem aprender, estudava em colégios particulares, onde papai pagou, passou.
O PSDB conseguiu inverter tudo. Inventaram a provação automática para empurrar todo mundo e desocupar a vaga. Privilegiaram, assim, as escolas particulares, pois só estudando nelas, ou fazendo tudo de novo, ou que deveria ter sido feito, vários anos, em cursinhos, também privados, para passar no vestibular de universidades públicas, limitando o acesso apenas para quem tem dinheiro, capital, quem dá lucro à iniciativa privada.
O ideal brasileiro está na Constituição, de 1988, orgulhosamente chamada por Ulysses de Cidadã, em que se lê "a educação é um dever do Estado e um direito de todos". Não me lembro da Carta Magna prever especificamente o dever do Estado quanto à água, talvez porque os legisladores constituintes nunca imaginassem tamanha sandice quanto a privatização da empresa que a provém a nós.
Enquanto isso, o Haddad não está nem aí para sua popularidade nas pesquisas, deixando até o Lula de barba em pé, e segue fazendo na prefeitura da maior cidade do País o que ele acha que precisa ser feito, sem ligar para o que dá voto. Eu votei nele, mas confesso que não sabia que ele era tão bom. Acho que ainda vou me surpreender mais.
Ao mesmo tempo, o Alckmin segue com aquela cara de azulejo de teflon. E olha que eu fiz campanha para ele, para deputado federal, quando ele tinha sido prefeito e provedor da Santa Casa de Pindamonhangaba.
Fazia um ano que eu não escrevia uma linha no meu blog. Desabafei.
Ultimamente, fui pouco a pouco me encontrando com o Brasil. Algumas pessoas do meu relacionamento, que me conheceram antes, passaram a caçoar de mim, acham que eu fiquei doido e me criticam. E não entendem o que mudou em mim.
Nos últimos 12 anos tenho sentido orgulho do Brasil. Talvez porque eu não leia Veja nem assista Globo. E tenho ido ao Ceará. Lá, todo mundo me conta como (quase) tudo melhorou. Nunca tinha visto o Brasil daquele ângulo. O Brasil melhorou tanto para aqueles lados que até o crime organizado foi atraído para lá, atraído pela recente fartura. Os nordestino diminuiram o ritmo de migração para o Sudeste. Vale a pena ficar. E os nordestinos que migraram antes, estão voltando para o Nordeste, porque agora tem perspectiva de vida lá. O Brasil equilibrou! Saiu da fome, saiu da vergonha, saiu do subdesenvolvimento, pagou o FMI!! Quantas charges eu fiz sobre a dívida do Brasil com o FMI, anos a fio, nos anos 80 e 90. E agora o Brasil empresta dinheiro ao FMI para que repasse a outros países que precisarem. Fantástico!
Lá na Nova Zelândia, em 2008, a moça do caixa de uma loja me perguntou: "o que está acontecendo que, de uns tempos para cá, tenho visto tantos brasileiros aqui? Antes eu nunca tinha visto brasileiros na Nova Zelândia?" Como é que eu tive condições de ir até lá?!
Para os brasileiros que têm casa em Miami ou apartamento em Nova York ou vão esquiar em Aspen todos os anos, o Brasil piorou muito. Agora eles correm o risco de trombar com o porteiro do prédio ou a empregada doméstica no mesmo vôo para Paris. Como disse aquela professora da PUC, os aeroportos estão parecendo estações rodoviárias. Uma gente pedante, asquerosa, que não se conforma em compartilhar o bem estar.
O Brasil se tornou a 6ª economia do mundo, fundou um banco de desenvolvimento com os BRICS. Quando o mundo inteiro quebrou nas crises, Estados Unidos, países da Europa, até Japão, empresas fechando, desemprego em massa, Espanha, Grécia, Portugal falindo, o Brasil segurou todas! A inflação controlada e a taxa de desemprego é a mais baixa de toda a história!
Um número astronômico de escolas técnicas e universidades federais foram construídas em todo o Brasil, mais de 400. Muitos estudantes brasileiros tiveram a chance de fazer intercâmbio no exterior, no programa Ciência Sem Fronteiras. Eu tenho alunos de faculdade que me dizem: "professor, eu sou o primeiro da minha família a fazer faculdade, minha mãe está orgulhosa de mim", beneficiados pelo ProUni, pelo FIES. Eu fico emocionado, os olhos enchem de lágrimas.
E a saúde?
Minha esposa, no início do ano, nas últimas semanas da gravidez, precisava tomar a vacina por causa do rh negativo. Ela ligou para clínicas particulares e verificou que o preço variava entre R$ 300 e R$ 400. Ela também ficou sabendo que a vacina era de graça no posto de saúde. Ela titubeou em se sujeitar, afinal, a mídia só fala que a saúde pública é um caos, filas intermináveis, uma bagunça, mas, resolveu arriscar, contrariando a propaganda negativa. Ligou para um telefone para obter informações e fomos ao pronto socorro mais próximo de casa que dispunha da vacina. Nos preparamos para enfrentarmos uma cena de um quadro do Picasso.
Para nossa surpresa e admiração, só o que ela precisou foi fazer um cartão de cadastramento do SUS, sem fila, sem espera, e tomou a vacina, grátis, no posto da rua Vitorino Camilo, Santa Cecília.
Por sua vez, o Dudu está com todas as vacinas em dia no cartão de vacinação dele, de quase 9 meses de vida, todas sem pagar nada, obtidas no posto da rua Almirante Marques Leão, Bela Vista. É só pegar uma senha e esperar sentado. E as pessoas são gentis e educadas.
Meu outro filho, que agora tem quase 6 anos, tomou todas as vacinas da época dele em clínicas particulares, minha filha, hoje com quase 14 anos, também, pagando entre R$ 150 e R$ 200 cada, inclusive porque muitas delas o SUS não tinha. Agora tem todas.
Por que a mídia não divulga isso? Por que a mídia só mete o pau no que está ruim e não dá uma linha para elogiar quando melhora ou está bom?
Eu tenho minhas suspeitas. Além, obviamente, da mídia fazer oposição a qualquer governo do PT e só dar destaque ao que pode ser criticado, a mídia mantém a população aterrorizada sobre a saúde pública para que corra para os planos de saúde privados e laboratórios que são os anunciantes, os patrocinadores da mídia. Então a mídia não serve ao povo, serve ao dinheiro, ao capital.
Quando eu conto isso, algumas pessoas não se conformam com o meu testemunho pessoal de que o Brasil está funcionando, está melhorando, e retrucam: "mas e aquelas reportagens que passam na TV de pacientes morrendo em macas, sem atendimento em hospitais, a mídia inventa aquilo?" Eu respondo que a verdade deve ser mostrada: o que é ruim e o que é bom. Os problemas de saúde do País não foram criados neste governo. Não dá para consertar 500 anos em 12. É preciso ter paciência e reconhecer quando há melhora, para que continue, para melhorar mais.
Se a mídia mostrar que está melhorando, as pessoas perdem o interesse nos planos de saúde, então pressionam a mídia para só mostrar tragédia. E a mídia consegue manter as pessoas acostumadas à tragédia. As pessoas foram condicionadas a duvidar de notícia boa, por falta de costume. Aceitam a tragédia como normal e se resignaram a dar anos de lucros aos planos de saúde (como é o padrão dos Estados Unidos, onde nem existe previdência pública universal, ninguém se aposenta se não tiver guardado seu próprio sustento para a velhice), como caminho mais fácil, manipulados pela mídia, ao invés de perseguir um ideal mais canadense, inglês, sueco, francês...
Aí meu amigos me desafiam com o assunto corrupção.
Pela primeira vez o Brasil tem políticos presos: foram julgados, condenados e estão cumprindo pena durante o próprio governo a que serviam. Inédito! A Policia Federal independente e atuante e o Procurador Geral da República não engavetando nada, apurando tudo. Sensacional. As instituições funcionando com autonomia!
Ao contrário de muita gente que acha que o Brasil está pior por causa de escândalos, eu acho o oposto. Escândalos sempre existiram, em todos os governos, mas ou não recebiam destaque pela mídia conivente ou não eram investigados até o fim, varridos para debaixo do tapete, passando a falsa sensação de que agora, quando tudo é trazido a público, é que está pior.
E, sem entrar no mérito, os que estão presos foram considerados culpados de corrupção ativa. Eu estou esperando o processo de investigação e julgamento dos corruptos passivos, aqueles que receberam a propina, não só dos que pagaram. Como também estou esperando o indiciamento e julgamento dos parlamentares que receberam dinheiro para aprovarem a mudança na Constituição para garantir a reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso. E também o julgamento dos corruptores ativos desse caso. E também estou esperando a apuração das denúncias de corrupção nos trens e metrô de São Paulo. Será que vai ter o mesmo destaque na Veja?
E um ponto que é fundamental para mim é a continuidade dos trabalhos da Comissão da Verdade. O Brasil ainda está muito atrás da Argentina e do Chile, que colocaram seus militares assassinos para pagarem pelo que fizeram durante suas ditaduras. O Brasil precisa passar seu passado a limpo e virar a página da história. No mínimo, para que a geração shoppingcenter, por ignorância e convenientemente desprovida de memória histórica, não saia por aí pedindo a volta dos militares. Precisa entrar no currículo escolar a história de Rubens Paiva, Vlado Herzog, Stuart e Hildegard Angel, entre outros, como uma vacina, para evitar que a doença se repita.
O Clube Militar fez acordo de apoio ao Aécio em troca de colocar uma pedra em cima de tudo. Este argumento, acima de todos os outros, me deu a certeza da minha opção. Somente a Dilma, que foi presa e torturada por três anos, que sentiu na pele, nossa guerreira, lutou por nós todos que estamos aqui hoje, inclusive pelos playboys que se divertiam surfando em Ipanema, somente ela tem compromisso com o que eu considero de suma importância, mais do que qualquer outra coisa, pelo futuro do Brasil. Pelas futuras gerações de brasileiros.
Eu confesso, já mexi com droga na vida: votei no FHC para o Senado, em 1978, ainda pelo MDB. Votei no Serra para a Prefeitura de São Paulo. E votei no Alckmin em 2010. Mas eu parei. No primeiro turno da eleição presidencial de 2010 eu ainda votei na Marina, pois acreditava no PV. Votei no Aloysio Nunes, meu conterrâneo, para o senado, por quem eu tenho admiração, mas que recentemente andou abrindo a boca para falar muita bobagem. Enfim, eu não sou petista, nem lulista. Nesta eleição, além do PT, eu também votei em quem acredito do PMDB e do PSB. Nem afirmo que nunca mais votarei em alguém do PSDB. Mas está difícil. Só no Serra é que nunca mais, uma pessoa sem palavra e sem caráter. .
E no Aécio nunca. Ele não devia usar assim o sobrenome do avô materno. O pai dele, Aécio Cunha, foi deputado federal pela ARENA, o partido dos ditadores militares, quando a família morava no Rio de Janeiro. Aécio, aos 17 anos, foi empregado pelo gabinete do papai em Brasília sem nunca ter ido lá, estudava no Rio. Aos 25 anos, foi nomeado por um titio para o cargo de DIRETOR DE LOTERIAS da Caixa Econômica Federal! Como governador de Minas Gerais, nomeou o papai para um cargo na CEMIG e a irmã mais velha para administrar a distribuição de verbas públicas de publicidade para amigos e as três rádios e o jornal que a família tem no estado. Nada do que eu estou escrevendo aqui é segredo nem invenção minha. São fatos. Ele perdeu a eleição em Minas. Existem outras denúncias muito graves contra ele, mas de ordem pessoal, não administrativa, e eu me abstenho. Quem se interessar em saber mais, é só procurar a informação nos lugares certos. A internet está cheia de opções. A mídia, poucas.
Se eu já vinha experimentando essa sensação de brasilidade inédita na minha vida nos últimos anos, o que causou a minha revolta definitiva foi aquela torcida no Itaquerão, diante de câmeras do mundo inteiro, na abertura da Copa, gritando impropérios de baixo calão contra a presidente* do meu País. Eu me senti agredido. Foi como se tivessem xingado minha mãe. A partir dali, se eu ainda tinha alguma dúvida, eu fechei com ela. Escolhi meu lado. Não quero fazer parte daquela gente privilegiada que só torce contra o próprio País.
Naquele dia, a manchete da Folha de S. Paulo foi "Começa a Copa com a Seleção em Alta e a Organização em Dúvida". O Arnaldo Jabor, no comentário do Jornal da Globo, resumiu a aposta da mídia em sua voz: "o Brasil vai mostrar sua incompetência para o mundo". Xô, urubus! O que se viu foi o oposto. O Brasil deu show, a seleção deu vexame. Não houve caos nos aeroportos, não caiu laje de estádio em cima da cabeça de nenhum torcedor estrangeiro, não faltaram hotéis, não faltou futebol (mesmo que proporcionado pela Alemanha e pela Holanda). Por que tanta torcida negativa? Por que tanta gente torce contra o meu País? Eu sou brasileiro, e eles?
Ele fizeram "manifestação" na avenida Faria Lima, em seus ternos Armani, suas camisas Polo e Lacoste, suas bolsas Louis Vutton, perfume Channel, dentro de seus reluzentes carros importados ou, pasmem, de táxi!! Única no mundo. Foi destaque, com espanto, na imprensa dos países onde eles preferem contribuir com impostos. No intervalo do último debate, na Globo, na sexta-feira, fui obrigado a assistir à chamadas da programação da emissora que aboli da minha rotina e vi a Christiane Pelajo anunciar as notícias principais do Jornal da Globo, que seria a próxima atração. Pelajo destacou os gastos dos brasileiros em compras no exterior, que nunca foram tão grandes, nunca, nunquinha, feitas por essa gente miserável que passa tanta necessidade aqui e só reclama que o Brasil está em crise.
Crise de decência. .
Que asco.
Tem muita coisa ainda a ser feita, claro. O Brasil ainda precisa melhorar muito. E pode copiar as boas ideias de outros países, com as devidas adaptações à nossa realidade. O Canadá, por exemplo, tem muita coisa melhor que o Brasil. Mas tem uma população que é a metade da população apenas do estado de São Paulo e seu PIB foi superado pelo do Brasil faz tempo. Então não dá para pegar o que eles fazem lá e trazer igual e pronto. A Suécia tem ótimas experiências. Mas o território do país é do tamanho de Goiás. Então as soluções precisam ser ajustadas às nossas dimensões. É preciso tempo para desenroscar todos os enroscos do Brasil e dar um voto de confiança a quem tem demonstrado trilhar o caminho do bem.
O que não é decente é a mídia passar décadas bombardeando os brasileiros com propaganda de que "o Estado não presta, tudo que é estatal é lento, ineficiente, atrasado e corrupto e é melhor entregar tudo para a iniciativa privada"(ter lucro e distribuir vantagens para os próprios donos da mídia). Chegamos ao cúmulo, em São Paulo, de privatizarem a água que meus filhos bebem, a água do meu banho! Isso foi o estopim da eleição do Evo Morales na Bolívia há três mandatos. Pois fizeram isso em São Paulo e os paulistas ignorantes ainda não acordaram. Depois que as ações da SABESP foram negociadas em Nova York, 49% da água que deveria sair da minha torneira pertence a estrangeiros, que ficam com os lucros da empresa ao invés dos recursos serem usados para melhorar o abastecimento. A minha sede dá lucro para estrangeiros. .
Antes de chegarmos neste estágio, fomos aplaudindo o PSDB ir vendendo tudo, o Banespa, a Telesp, a Vale, as estradas paulistas. Fomos convencidos de que era para o nosso bem. Bem de quem? Santander e Vivo (Telefónica) têm as maiores queixas de usuários no PROCOM. Vamos reclamar agora para o rei da Espanha? E o dinheiro conseguido com essas vendas? Mantiveram a USP? O Museu do Ipiranga? A TV Cultura? Foi investido na melhora da vida dos paulistas? Leia o livro "A Privataria Tucana".
As estradas paulistas são lindas. E caras! São Paulo tenta imitar a Califórnia (onde morei, estudei e voltei uma dúzia de vezes) mas não: na Califórnia estrada nenhuma tem pedágio. Se há uma coisa que os americanos dão valor é a tal liberdade de ir e vir. A única estrada pedagiada, que já usei nos Estados Unidos, foi na Flórida, entre Miami e Orlando. Deve ser influência da quantidade de faustões e xuxas que têm casas lá. Mas, mesmo nesse caso, é dada uma alternativa à liberdade: uma outra estrada, não pedagiada, mais estreita e congestionada de tráfego de caminhões, corre paralelamente à "Florida Turnpike", indo para o mesmo lugar. Aqui não. A gente paga o IPVA todo ano e tem de pagar de novo para dirigir o carro em cada estrada. E fomos convencidos a achar isso maravilhoso. Como deu certo, o povo aguenta sem reclamar, privatizaram a água. E o povo paulista adora e vota.
Essa "campanha" pela iniciativa privada foi desenvolvida por muitos anos, com a conivência da mídia, em todos os setores. Na educação, por exemplo. Eu estudei em colégio estadual. Meus pais também. Naquela época, nos colégios estaduais estudava quem queria qualidade. Quem não tirasse nota era reprovado. Tenho um amigo que repetiu duas vezes o mesmo ano. Fez de novo até estar em condições. E não foi para uma escola particular mais fácil. Hoje ele é médico, e dos bons.
Minha mãe reprovou muita gente. Os que ela aprovou, depois de "suarem a camisa", costumam visita-lá, agora octogenária e aposentada, para agradecer o que ela fez por eles, por seus futuros, por suas profissões. Quem queria moleza, queria só passar de ano sem aprender, estudava em colégios particulares, onde papai pagou, passou.
O PSDB conseguiu inverter tudo. Inventaram a provação automática para empurrar todo mundo e desocupar a vaga. Privilegiaram, assim, as escolas particulares, pois só estudando nelas, ou fazendo tudo de novo, ou que deveria ter sido feito, vários anos, em cursinhos, também privados, para passar no vestibular de universidades públicas, limitando o acesso apenas para quem tem dinheiro, capital, quem dá lucro à iniciativa privada.
O ideal brasileiro está na Constituição, de 1988, orgulhosamente chamada por Ulysses de Cidadã, em que se lê "a educação é um dever do Estado e um direito de todos". Não me lembro da Carta Magna prever especificamente o dever do Estado quanto à água, talvez porque os legisladores constituintes nunca imaginassem tamanha sandice quanto a privatização da empresa que a provém a nós.
Enquanto isso, o Haddad não está nem aí para sua popularidade nas pesquisas, deixando até o Lula de barba em pé, e segue fazendo na prefeitura da maior cidade do País o que ele acha que precisa ser feito, sem ligar para o que dá voto. Eu votei nele, mas confesso que não sabia que ele era tão bom. Acho que ainda vou me surpreender mais.
Ao mesmo tempo, o Alckmin segue com aquela cara de azulejo de teflon. E olha que eu fiz campanha para ele, para deputado federal, quando ele tinha sido prefeito e provedor da Santa Casa de Pindamonhangaba.
Fazia um ano que eu não escrevia uma linha no meu blog. Desabafei.
sábado, 30 de novembro de 2013
2024
Sobraram poucos focos de resistência, tipo Uganda, Tuvalu, Japão e menos da metade da Ilha de Man. A maioria do resto do planeta é gay. É o planeta mais gay de toda a galáxia. Nunca antes na história desse universo pudemos ter tanto orgulho de sermos o que somos.Depois de mais de uma década de baixas para a AIDS, de Rock Hudson e Freddy Mercury a Cazuza e Renato Russo, o Gay Power retomou a ofensiva na midia no final dos anos 90 do século passado e foi bem sucedido em convencer que ser gay era cool e ser hétero era obsoleto e démodée.
Os poucos héteros eram ridicularizados na rua e dificilmente conseguiam emprego. Alguns héteros fingiam ser gay para se dar bem na vida. Em 2020 as bandeiras dos países passaram a ser reestilizadas, com muitas listras coloridas, para simbolizar o novo sistema dominante e glorioso da humanidade. ![]() |
| Santa Maria, Pinta e Nina já portavam bandeiras gay. |
A história sempre for escrita pelos vencedores, portanto os livros escolares passaram a retratar a verdade escondida durante muito tempo dentro do armário: os gays sempre estiveram por trás de todos os avanços, desde as artes, passando pela ciência, a economia, a política, os esportes e, principalmente, os militares, que passaram a se revelar sem frescura.
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| Gays celebram a vitória na Segunda Guerra. |
Santos Dumont, Leonardo Da Vinci, Zorro, Batman e Robin, os três porquinhos, Matusalém, Ataualpa, Milli e Vanilli, Xena e Gabrielle, Jim Parsons, os Teletubbies, tudo gay. Todos paradigmas, todos modelos exemplares a serem imitados. Tudo gente de sucesso.
Ser gay passou a ser destaque. Ser gay é sinônimo de auge da evolução humana, como aliás, já havia sido na Grécia antiga, entre os aprendizes de filósofos, que deram ao mundo em abundância os conhecimentos que nos guiam até hoje, no terceiro milênio.
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| A NASA escondeu: houve uma Apollo 24 na Lua. |
O mesmo ocorre com as cotas para escritores de novelas da Globo, embora com mínimas possibilidades de serem preenchidas.
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| Agora é consenso: no Paraíso era Ada e Eva. |
Bastariam alguns meses de internação para os indivíduos emergirem sensíveis, criativos, emotivos, carinhosos, "normais" e úteis ao sistema gay da sociedade.
O planeta Terra agradece: adeus aos problemas de controle demográfico. Com predominância de casais de homem com homem e mulher com mulher, há uma tendência de decrécimo da população.
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| Encontrado exemplar da G Magazine em papiro. |
Contudo, alguns psicólogos insistem que heterossexualidade não é doença, portanto não é possível alguém ser curado disso. Mesmo os psicólogos gays concordam com isso mas divergem na origem: a heterossexualidade é característica de nascimento, é adquirida pelo convívio social ou é opção de vida?
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| Há 4 anos George Takei era eleito. |
A discussão é infindável e promete desafiar o tempo. Enquanto isso, o ainda incipiente movimento MFSH (Machos, Fêmeas e Simpatizantes do Heterossexualismo) promove panfletagem de suas ideias em portas de faculdades, estádios e saídas de estações do metrô.
Em Goiânia e Cuiabá, o MFSH conseguiu desafiar a polícia gay e promover uma breve passeata nas principais ruas da cidade, tendo como inspiração o ocorrido recentemente em Dallas e Teerã.
São incidentes, entretanto, considerados isolados. Não há nada que justifique qualquer preocupação das autoridades gays.
A sociedade gay como um todo está garantida em seus alicerces sólidos. O grande irmão gay está de olho em tudo. Jamais verás planeta com este, imita na alegria a Terra em que nasceste!
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| George Takei concorre à reeleição. |
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| George Takei em campanha para um segundo mandato. |
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| George Takei confia no apoio dos trekkers para se reeleger. |
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| George Takei pede apoio aos Escoteiros Gays da América. |
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| George Takei seduz partidários do Homem-Aranha para sua campanha. |
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| O preço da liberdade é a eterna vigilância. A sociedade gay pode ficar tranquila que a paz e nossos bons costumes estão assegurados por um sistema atento e eficiente. |
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