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segunda-feira, 2 de abril de 2012

ABRIL NO BRASIL

    Os portugueses chegaram no dia 22 de abril de 1500.

   Escaparam por pouco de chegar no dia anterior, que seria feriado, por causa de um dentista que foi enforcado em Minas, em 1743. Parece que o que ele fez foi inconfidência. Hoje em dia, mineiro fala pouco, fala baixo, come quieto, debaixo dos panos, só faz confidência. 

    Dentista então, tudo de branco, maior pureza, se defendem como podem com a broca. Não ouvem quase nada além de hummm, ai, ugh, e não espalham.

    Era dia de Páscoa e eles avistaram um monte, que levou o nome de Monte Pascoal, meio parecido com a colomba de hoje. O grumete lá em cima gritou “terra à vista” e nós estamos pagando a prazo até hoje. Foi a abertura do nosso primeiro crediário e foi na Bahia, em Porto Seguro.

    Eles saíram de Portugal com 12 navios, e perderam três pelo caminho, que afundaram, e não tinham seguro. Disseram que foram os bons ventos da África que os trouxeram ao Brasil e os fizeram acabar na Bahia por acaso, pois eles tinham mesmo é saído à procura das Índias. Encontraram os índios. E baianos.

    Os índios, portanto, descobriram os portugueses no domingo de Páscoa. E ganharam o dia 19 de abril, que tinha sido na quinta. Antes disso, todo dia era dia de índio. E os portugueses os mandaram pros quintos. Logo que chegaram, começaram a cruzar a ignorância deles com a ignorância das índias, dando origem a nós brasileiros.
Essa é uma ilustração que fiz para o futuro livro de um amigo dentista que conta histórias curiosas que aconteceram no consultório dele. Quem sabe, um dia, a gente termine.

    Mas rola um boato que eles não foram os primeiros, que os Vikings já haviam estado aqui antes. Os Vikings eram uns loirões altos e fortes, de olhos claros e cabelos compridos, e deixavam em casa umas mulheres muito gostosas e peitudas para navegar meses e meses pelos mares à procura sei lá de quê, vai entender. 

    Talvez por isso, fossem todos chifrudos. Tinham aqueles baita chifres saindo dos capacetes. Estranho que com esse visual todo não tenham deixado lembrança alguma, se é que vieram mesmo. E se vieram, não eram mesmo de nada, pois não ficou nenhum índio loiro pra contar a história.

    Depois disso, muita coisa mudou por aqui, de Ilha de Vera Cruz, pra Terra de Santa Cruz, pra Souza Cruz do Brasil, que é de ingleses, da British Tobacco Co. Foi parar na Inglaterra todo o ouro achado em Minas pelos portugueses. Virou fumaça. 

    Os portugueses já deviam os tubos para os ingleses, o FMI da época, e taparam o rombo com o ouro dos inconfidentes, que logo chegou ao FIM. E enforcaram o dentista inconformado. Hoje, os dentistas aceitam cheque pré e até cartão de crédito.



segunda-feira, 12 de março de 2012

EU VOU MORRER!

É uma certeza que eu tenho. Outras duas certezas: tenho que pagar para viver e os gatos sempre caem de pé. Todo o resto é variável. 


Desde que o Kiko entrou em nossas vidas, reavivando a última certeza que eu já tinha, as outras foram realçadas. Há dois meses eu tenho mais um filho, com carteirinha de vacinação (!), com manhas, dengos e traquinagens, que depende de mim para ser alimentado e entretido dentro do espaço de um apartamento no centro de São Paulo. 
O Kiko, como todos os gatos rajados (dizem que o tigrado é a cor original dos gatos em geral, antes de serem domesticados pelos egípcios, há 5 mil anos), tem um "m" desenhado na testa (aprendi tudo isso outro dia). Gato também é cultura.

Eu tento compensar com mordomia, ração e brinquedos a falta da mãe dele (Kika) e todo o quintal, com árvores, que ele tinha à disposição na casa do meu pai (o outro Ralfo), em Nova Granada. Eu tento, também, conviver com minha consciência que me cobra pelo sequestro de um menor. E me conforta a ideia de que a Kika espera meu pai chegar do trabalho todo dia e o segue pela casa, enquanto o Kiko está aqui no meu colo neste instante, como se fosse para ser assim.


Eu convivi com gatos minha vida toda, mas esta á a primeira vez, em mais de meio século de existência, que eu tenho um. Lá, em Nova Granada, os gatos é que eram meus donos, vinham pelos muros e telhados e tomavam posse de mim, como a Kika, hoje, é a atual dona do meu pai. Meu pai nunca deu banho nela, nunca aparou as unhas, nunca levou ao veterinário. Ele apenas joga ração e chama pelo nome para diferenciar do Tenente, gato que também bate ponto lá (e ganhou até uma "caminha" de espuma em cima de uma cadeira na parte coberta do quintal) e é o avô do Kiko.
Isto é um lar. Note que o Buzz Lightyear também está desmaiado, coitado, depois de brincar o dia inteiro.

Faltava o Kiko para compor o lar, inclusive para despertar a rivalidade no meu outro filho e a compaixão da minha filha de 11 anos. Mas nada sai de graça. Tudo tem um custo. Além da ração e do veterinário, dos brinquedos, roupas, escola e festas de aniversário, todo começo de ano o bolso fura: além do condomínio, ainda tem o IPTU, o IPVA, o DPVAT, mais a renovação do seguro do Jorge. São contas, contas e mais contas. Mesmo que eu não tivesse um lar para ajudar a sustentar, eu sozinho já me daria muita despesa. Tenho de trabalhar direto para pagar minha vida.
O Jorge é ligado na CBN até na placa.
Com o suor das minhas mãos (já que só escrevo e desenho) eu, orgulhosamente, ajudo a movimentar a roda da economia de um País que se tornou a sexta potência do mundo, ultrapassando o Reino Unido. Se eu continuar meu esforço, pagando todos os impostos, sustentando a presidente, o vice, os 70 deputados paulistas, todos os ministros, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica, os Correios, a Petrobrás, o governador e o vice, todos os secretários paulistas, os 94 deputados estaduais, o prefeito da cidade de São Paulo, o vice, todos os vereadores e secretários, dizem que o Brasil ultrapassará a França no final do ano. Yes! Quero dizer, oui! Eu tenho que viver para ver esse dia.


E aí, além da saúde pública de primeira e escolas de destaque na comunidade acadêmica internacional, teremos segurança pública, ruas e estradas em condições de rodarmos com o recém-lançado modelo da Lamborghini, o Aventador, lá na Itália (que nós já deixamos no chinelo há mais tempo - afinal, o país da bota é membro dos PIIGS, lá embaixo, e nós somos dos poderosos BRICS, no auge). 
O dia chegará, em que eu não precisarei de um utilitário com tração 4x4 para vencer os obstáculos todos os dias e alagamentos em dias de chuva em São Paulo. Vou poder rodar com um Lamborghini Aventador a poucos centímetros do chão, sem arrebentar a suspensão em buracos ou valetas. Vou poder estacionar um veículo sem capota em qualquer lugar, e ele ainda estará lá, inteiro, quando eu voltar da ópera. 


As estradas brasileiras serão como as autobahns alemãs, em que os veículos podem ser acionados no limite dos seus velocímetros. De casa para uma das faculdades que dou aula à noite, em Cotia, vai ser rapidinho. O único ponto negativo, talvez, será a falta do pára-brisa no Aventador. Vou engolir muito inseto e outros bichos maiores na Raposo Tavares. Talvez dê para eu pedir um desconto para a Lamborghini pelo inconveniente ou, pelo menos, um capacete virá como acessório de série. 


Acho que já vou deixar encomendado. Não custa nada. Sonhar não mata.


domingo, 29 de janeiro de 2012

PAPO DE BANHEIRO

Quem me conhece, sabe que eu adoro banheiro. Eu avalio qualquer bar ou restaurante pelas condições do pedrinho. Se o pedrinho está convidativo e aconchegante, o lugar me ganha. Alguns são até humorísticos a partir da placa indicativa na porta.


Uma enorme letra eme amarela no horizonte de uma cidade, para mim, significa a localização de um oásis. Quer eu esteja em qualquer grande cidade brasileira ou em outros países, quando eu avisto um McDonald's, eu gravo mentalmente o endereço para quando precisar de um banheiro em condições de uso. Acabo consumindo uma coisa ou outra, seja em Paris, em Buenos Aires, em Los Angeles ou na Nova Zelândia, em retribuição. 


Onde existe um McDonald's significa que a civilização, tal qual a conheço, chegou ali. Me sinto seguro e em casa em um McDonald's, um lugar onde posso tomar um café sentado em Paris sem pagar mais por isso, por exemplo, mas isso é assunto para outro dia. Hoje, o papo é banheiro. 


Na faculdade onde leciono, eu procuro usar pedrinhos diferentes para variar a leitura atrás da porta. Se eu usar sempre o mesmo box, dos vários banheiros em todos os andares, eu vou limitar o meu conhecimento apenas às fofocas sobre aquela professora, aquela aluna piranha ou aquele funcionário corno. Afinal, numa universidade, a variação do destino do número 2 também é fonte de conhecimento. É uma mídia poderosa. 


Lá em Londrina, onde cursei Jornalismo, nós tínhamos mesmo um Jornal de Banheiro. As edições eram afixadas atrás das portas dos pedrinhos, com notícias diversas, recados, eventos e todo patrocinado, com anúncios de bares, escolas de línguas e sex shops. 


E era um jornal interativo. Os usuários do pedrinho rabiscavam coisas nele, pintavam bigodes e chifres nas fotos, escreviam xingamentos, obcenidades, escatologias. Todo mês a gente colava uma edição nova. Chegamos a incluir palavras-cruzadas e outros passatempos, já que havia demanda. 


Era um pedrinho livre e democrático, um locar de lazer e relaxamento. Um orgulho para Londrina. Mais íntimo que aquela tribuna ao ar livre que existe no centro de Curitiba, onde as pessoas podem subir e se estravazarem livremente (uma cópia do "people's corner" de Londres). 


Com tudo isso, eu preciso demonstrar a minha constante indignação com a indústria automobilística que nunca trouxe à Terra o conforto disponível no espaço desde a última década de 60 do milênio passado.


A corrida espacial entre russos e americanos nos rendeu, ao nível do chão, o velcro, o teflon, o sistema GPS e mais um monte de inovações tecnológicas, mas, quando eu estou em um congestionamento de duas horas nas ruas de São Paulo, o que acontece com frequência, fico me perguntando por que eu não tenho o que os astronautas têm. 


O automóvel não saiu do básico desde que foi inventado: tem quatro horas, um motor, um teto e quem dirige fica sentado... e apertado para ir ao banheiro. Os astronautas não precisam parar o foguete em um posto da estrada ou em um McDonald's em órbita para aliviar a bexiga nem o número2. Pilotos de aviões de combate também têm acesso a dispositivo similar, disponível desde o projeto Mercury, que levou John Glenn ao espaço em órbita da Terra, em 1962. Depois teve o Projeto Gemini, o Apollo e os ônibus espaciais, isso só do lado da NASA. Talvez o russo Yuri Gagarin, o primeiro ser humano no espaço, em 1961, tenha sido também o primeiro a ver Boston fora da Terra, embora se saiba pouco sobre isso, pois os soviéticos eram super secretos e tomavam o maior cuidado para os americanos não verem Chicago da estratosfera antes deles.


Passaram-se 50 anos, meio século, e nada: o carro tem air bag, GPS, câmbio automático, freio ABS, motor flex, pneu radial, mais isso, mais aquilo outro, mas banheiro... necas de pitibiriba! Absurdo! Deve ser uma conspiração internacional, um lobby dos donos de postos de estrada em conluio com o McDonald's. 


Agora imagine: assim como hoje você entra no carro e coloca seu cinto de segurança, o motorista e cada passageiro do veículo poderiam "encaixar" também seus DDCs (Dutos de Dejetos Comburentes) e mandar brasa com o carro em movimento, sem parar. As extremidades dos DDCs seriam personalizadas e pessoais para cada usuário, para o pai, para o filho, para a filha, para a mãe, para a avó, para o bebê na cadeirinha e até para o Totó. 


Além disso, o reservatório de todos os dejetos produzidos, localizado sob o chassis, com alguma adaptação a cargo dos engenheiros de motores, poderia ser o próprio tanque de combustível do carro. Não seria impossível: o gás resultante da fermentação das fezes (só não sei se é metano ou butano, não tô lembrano) queima com fósforo, então é comburente. 


E a última tecnologia de motores, atualmente, para uso de biodiesel, precisa da adição de um aditivo à base de uréia. Ora, de onde vem a uréia? Da urina. Então, ali debaixo do carro teria matéria-prima, direto da fonte para o consumidor, só falta os engenheiros descobrirem como otimizarem a questão. Mas isso é só um detalhe.


A família privilegiaria alimentos como batata-doce, repolho e feijão, beberia bastante cerveja e pronto! Iria viajar com o abastecimento do próprio veículo garantido, em movimento. Isso sim é sustentabilidade.


Existe mais um aspecto que não pode ser negligenciado: o prazer. Além do alívio físico e do óbvio conforto, uma boa parte do stress em decorrência dos longos congestionamentos no trânsito das grandes cidades poderia ser combatido com a inclusão de vibradores nas extremidades. Seria um opcional, claro. 


Mas, imagine quantas novas possibilidades de presentear seriam criadas. Impulsionaria a economia. Além de perfumes, jóias, roupas, calçados, eletrônicos, livros, midia em áudio e vídeo, as pessoas poderiam ganhar de presente nos aniversários, natais e que tais, estojos personalizados com seus conectores em formatos, cores, texturas e funções de sua preferência.


Isso sim promoveria uma revolução no trânsito e nas estradas, sairíamos da mesmície. Hoje em dia, depois da invenção das quatro rodas, o máximo em que se ousa é no nome. Os chineses trouxeram a Chana deles para o Brasil, que ousadia. A caminhonetinha é até legal e atende a um nicho de necessidade de transporte. Os asiáticos não estão nem aí se o nome dos veículos deles coincide com algum significado cacofônico. Só querem vender e pronto. Lembra da Besta dos coreanos?


Não resisti e tirei essa foto de um veículo estacionado numa rua do centro de São Paulo: o cristão bem que tentou colar um adesivo de "Jesus" por cima para neutralizar o efeito da Chana chinesa.
Quando eu morei nos Estados Unidos, no final dos anos 1970, minha vizinha tinha um Pinto verde. Carregava todo mundo no Pinto, mandava lavar o Pinto, trocava o óleo do Pinto, engraxava o Pinto, calibrava o Pinto e encaixava o Pinto em qualquer lugar, pois era fácil manobrá-lo. O Ford Pinto tinha o formato de um "maverickezinho", do tamanho de um Gol atual.


Os americanos nunca lançaram o Pinto deles aqui no Brasil. Talvez se preocupassem com o nome, coisa que os chineses não ligam. Se a Ford tivesse pelo menos tentado, poderia rebatizá-lo aqui de Galo, o que não deixa de ser um pinto grande. E galo, lá nos Estados Unidos, é "cock", e aí sim é pinto para eles. Então estaria empatado.


Imagine se o Tony Ramos usasse a Chana da Gloria Pires, e ela, o Pinto dele! Daria filme.



domingo, 15 de janeiro de 2012

O ÚLTIMO BBB

Trinta cearenses, três cariocas, dois paulistas e três cachorros confinados, durante uma semana, em uma casa na praia, de um condomínio fechado, em Cumbuco, litoral oeste do Ceará, a 65 quilômetros de Fortaleza. 


Não, não é o enredo de nenhum novo "reality show" e não vai passar na TV, embora tenha tido tudo que é característico do gênero: gente se desentendendo, chorando, rindo, comendo, bebendo, vomitando, jogando, dançando, cantando, se entediando e mais alguns andos, endos, indos e ondos. Eu era um dos paulistas, o outro era meu filho de quase 3 anos de idade, por volta do último Ano Novo.


Eu não assistiria se passasse na TV. Aliás, não assistiria a nenhum "reality show". Tenho repugnância pelo gênero. Até mesmo a realidade de verdade, às vezes, não é nada digesta. Imagine: 500 deputados confinados em uma assembléia ou câmara durante cinco dias, ou 40 passageiros de ônibus em um congestionamento na Radial Leste, numa manhã de muita chuva, obrigados a conviver, uns com os outros, durante 4 horas. Quem iria assistir a isso? Algum demente. 


O BBB não deixa de ser um "peep show" transmitido em rede nacional e patrocinado por empresas de prestígio. É a oficialização da perversão. 


Ah, tá, o que é "peep show"? Assista ao filme "Paris, Texas". Consiste em pessoas (homens ou mulheres) se exibindo (fazendo strip tease ou alguma outra coisa indiscreta) em um recinto envidraçado para outras pessoas que não podem tocá-las nem serem vistas. Até outro dia, não era o tipo de ambiente ou atividade que se imaginava relacionado a nossas mães, tias ou avós. Era coisa para se fazer escondido, em ambientes escuros, cheios de cortinas e discrição. "Peep" quer dizer espreitar em inglês. Estabelecimentos comerciais com essa configuração tiveram seu momento nos EUA nos anos 80 do século passado. No Brasil, nem tanto. 


Até outro dia, você pegar binóculos e ficar bisbilhotando a vida das outras pessoas nas janelas dos apartamentos e casas ao redor, ou espreitar pelo buraco da fechadura do banheiro ou quarto de alguém, era um comportamento indecente. Com o BBB e congêneres, espiar alguém no banho ou dormindo ou tirando a roupa ou sei lá o que, virou assunto de alto nível em conversas de qualquer chá de senhoras religiosas.


O que esse tipo de programa fez pela civilização atual é claro: banalizou a baixaria. 


É como mendicância e pessoas sem-teto. Quando você vê um mendigo ou uma pessoa deitada na rua, você se compadece, enfia a mão no bolso, caça umas moedas, oferece ajuda, paga um "lanche", oferece um cobertor, chama as autoridades, indica um albergue, essas coisas. Quando você vê muitos mendigos, um depois do outro, ou muitas pessoas caídas pelo chão nas calçadas da cidade grande, você tem uma ou outra reação: ou evita, fechando as janelas do carro ou desviando, passando pela outra calçada, ou se acostuma, não os enxerga mais, como se simplesmente fizessem parte da paisagem, fossem coisa normal. De um modo ou de outro, o resultado é o mesmo: você fica imune pelo excesso, 


Da mesma forma, de tanto sermos inundados com baixarias na TV, vamos nos acostumando que isso é normal e aceitamos essa "reality". Tem gente que vicia. Muita coisa que não presta vicia. Tem gente que paga por um canal a cabo exclusivo, com 24 horas de intromissão nas atividades dos (forjados) "brothers e sisters". 


Eu tenho mais o que fazer.


Reconheço que o gênero já produziu algumas pérolas, como a Sabrina Sato, por exemplo (aí, até eu sou permeável), e talvez isso compensaria tudo. Mas, tenho quase certeza que a estrela dela teria brilhado de outra forma.
Começa mais um ano e rolam muitas profecias, há milênios, de que este é o último. Os maias deram a entender que depois de dezembro de 2012 não tem mais história. 


Os sumérios sabiam de todos os planetas no sistema solar e um extra, o planeta X (dez) ou, pelo nome que deram, Nibiru, que também tem uma órbita em volta do nosso sol, embora muito doida, e a cada 26 mil anos tira uma "fina" da Terra e muda tudo. Pelos cálculos, dizem que da última vez que o planeta errante passou por esses lados, desequilibrou a Terra de um tal modo que mudou o eixo de inclinação. Os pólos Norte e Sul antes, ficariam onde se conhece hoje por Triângulo das Bermudas e Triângulo do Dragão (ao sul do Japão), regiões e grande concentração magnéticas e com muitas histórias de desaparecimentos misteriosos de navios, aeronaves e seus tripulantes. De acordo com a interpretação das inscrições dos sumérios (povo que viveu perto de onde hoje é o Iraque), o Nibiru estará de volta este ano, antes do Natal. Os adeptos das teorias da conspiração dizem que ele já é visível no céu e que existe um retângulo preto e opaco no "Google Sky", onde todo o resto é cheio de estrelas, como se houvesse sido recortado ou censurado (pela NASA, dizem). 


Existem já filmes e vários documentários sobre o fim do mundo em 2012. Se isso realmente se confirmar, uma coisa é certa: o BBB12 é o último. Antes tarde. Será a resposta do cosmos. 



terça-feira, 20 de dezembro de 2011

XING LING

Nesta época do ano, há 23 anos, na Vila Carrão, em São Paulo, uma adolescente, vizinha da minha namorada, me estendeu a mão e disse: olha o que eu ganhei de Natal, um Pierre Cardin! Eu achei meio improvável que o Pierre coubesse na mãozinha da menina ou que ele pudesse ser adquirido e presenteado para alguém, então fiquei procurando alguma outra coisa que justificasse o apelido. Foi quando minha namorada me cutucou e susurrou: "o relógio". Ah, tá, lindo seu Pierre Cardin, parabéns! 


Isso nunca saiu (é óbvio) da minha cabeca. O objeto não se chamava mais relógio. Onde será que tinha sido fabricado o Pierre Cardin da menina? Será que era Francês? 


Eu nunca fui ligado em marcas, eu nunca falei: olha a minha Timberland, que é a marca da minha botina, que eu troco a cada dois anos, há 6 anos, sempre o mesmo modelo. Eu chamo de botina. O meu computador, eu chamo de meu computador, não de meu Sony Vaio (que substituiu um Acer, que substituiu um Positivo, que pararam de funcinar assim que fizeram o primeiro aniversário e cujo conserto era economicamente inviável).


No entanto, desde que comprei meu novo celular, ando, orgulhosamente exibindo-o como "olha meu xing ling"! Nao é celular, é xing ling. Eu tenho consciência que paguei muito barato, que não tem garantia, que não tem para quem eu reclamar de algum defeito (e tem) e, mesmo que tivesse, não entenderiam minha língua e que, mais dia, menos dia, vai parar de funcionar. Essas são, exatamente, as características que definem algum produto xing ling. Vou exibi-lo enquanto posso, enquanto funciona. 
A maior prova de que a dificuldade de comunicação é de um autêntico produto xing ling, é o manual que o acompanha, totalmente em português ininteligível, como, por exemplo, o tópico "bateria": " No início, a bateria tem energia elétrica cerca de 50%, ele pode ser usado imediatamente após rasgar aberto. Ex-use três vezes acima da electricidade e imperatriz completamente novo..." Ou a explicação do funcionamento das teclas 5, 6 e 7, em uma tabela: "Multi-giro acidente vascular cerebral em rabo-de giro, visto como o diagrama em anexo". 


Na dúvida, ando mantendo distância das teclas 5, 6 e 7, e não deixo meu filho manusear meu xing ling sem supervisão paterna. É bom saber, no entanto, que ele pode ser útil como mecanismo de proteção anti-violência: se algum dia eu me vir no meio de um assalto, que Zeus me livre, eu preciso me lembrar de usar meu xing ling para me defender e ameaçar: cuidado comigo, e só eu apertar as teclas 5 ou 6 ou 7 e vocês não queiram nem saber!


É impressionante como o Chinês conseguiu desperdiçar tanto tempo e material dessa maneira. O manual é grossinho, gastou papel de qualidade razoável, capa colorida, mostrando o celular oval do Homem-Aranha em vários ângulos (como eu poderia resistir) e é só isso que se aproveita. Quase nada do que está escrito faz o menor sentido. O Google foi proibido na China, então não podemos culpá-lo da tradução.


Sempre tenho um pé atrás com produtos xing ling, por causa de tudo isso aí. Acho que todo mundo tem. Mas a gente acaba comprando uma coisa ou outra, porque são irresistíveis ou porque somos desmiolados. Mas não arrisco comprar um sensacional automóvel xing ling, com design italiano, mesmo que tenha certificado de fabricação na cidade onde meu amigo Adel é vice-prefeito, Jacareí. Será que quebra logo? Será que vai me deixar na mão? Será que tem valor de revenda? Será eu estaria sentado em cima de uma bomba ambulante? Será que o manual está escrito no mesmo português do meu xing ling?
Entretanto, como sou incorrigível, acabo de comprar um instrumento musical "made in China"(simplesmente porque não encontrei outro - em breve vai ser tudo assim, até rapadura vai vir de lá): trata-se de um ukulele, uma espécie de cavaquinho havaiano. Faz tempo que observo o som dessa violinha, em filmes do Elvis ou no desenho da Lillo & Stich. 


O que me fez me apaixonar pelo instrumento, mesmo, foi eu ter descoberto, tardiamente, o Israel Kamakawiwo'ole, havaiano falecido em 1997 como consequência da obesidade mórbida. Fantástico. Eu quero aprender a fazer aquilo. 
Depois disso, pesquisei para diminuir minha ignorância, e descobri que o ukulele é derivado do cavaquinho, levado para o Hawaii por marinheiros portugueses no seculo XIX. Os havaianos mantiveram as mesmas quatro cordas, mas mudaram a afinação para sol - do - mi - la, com as duas cordas da ponta, agudas, e as duas do meio, graves. Muitas celebridades já foram vistas exibindo um ukulele: George Harrison, Eddie Vedder, Jack Johnson, Jason Mraz e Marisa Monte. 


Faz só três dias que estou com meu ukulele, fuçando até tocar alguma coisa. A primeira dificuldade foi afinar. Já saiu "Parabéns a Voce" e "Jingle Bells". Tomara que até o final das férias, em fevereiro de 2012, eu possa honrar a memória do IZ com um pequeno trecho, pelo menos, de "Somewhere Over the Rainbow".


Sempre que alguém pergunta: "está aprendendo a tocar cavaquinho?" Se eu resolvo explicar que não é um cavaquinho, que é um ukulele, a pessoa pergunta: "uku-o-que?" Então deixa pra lá, antes que desande para uma conversa chula, que seja cavaquinho havaiano. Afinal, os marinheiros portugueses de dois séculos atrás eram da Ilha Madeira, terra dos meus antepassados maternos. 


Com o ukulele na mão, tentando imitar, muito, mas muito longe, o Kamakawiwo'ole, o xing ling sou eu, não o instrumento.



quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

ESQUEMA para CONTROLAR

Preto. Preto. Prata. Prata. Prata. Preto. Cinza. Branco. Branco. Branco. Prata. Preto. Cinza. Preto. Este é o resumo das cores dos carros que passam em qualquer rua de São Paulo, em qualquer dia e horário. É um tédio. Quando aparece, muito raramente, um vermelho ou, mais raramente ainda, um azul ou amarelo, é show. 


Essa monotonia visual também poderia ser tópico de vistoria dos veículos, afinal, quando os turistas dizem que São Paulo é uma cidade cinza, o caráter monocromático da frota em circulação deve contribuir para a fama de sisudez. 


Outra ideia, para inspirar a inspeção veicular, seria o gênero musical do som que o carro costuma emitir pela cidade. É muito barulho.Tem poluição sonora da grossa sendo cometida nos congestionamentos, e não são só as buzinas, mas é o sambão, o pagodão, o axé, o sertanojo, o rock pauleira, o funk, o rap, as escandalosas orquestras sinfônicas... ops, misturei por um instante com os congestionamentos na Áustria e na Bélgica. Para ganhar o selinho de OK, o condutor do veículo teria de provar que o sistema de som do carro só executa Ray Coniff, Glenn Miller e similares.


Estou tendo esses devaneios (será?) depois que soube que um casal de amigos meus teve a moto reprovada na inspeção veicular 2011 por causa de 0,25 decibel (esse é o singular de decibéis?). Antes de ouvir essa história, eu nem sabia que a Controlar também aferia poluição sonora...e com essa precisão de casas decimais. Deve ter um maestro da filarmônica trabalhando para eles como inspetor com um diapasão na mão. 


Pois meus amigos levaram a motocicleta na concessionária da Honda para pedir uma rigorosa adequação aos padrões rígidos da Cidade de São Paulo. Resposta da Honda: não há o que fazer, o escapamento está perfeito, como sai de fábrica. Então meus amigos levaram esse argumento à Controlar e esperaram, esperaram, esperaram até 15 dias, quase esgotando o prazo para a segunda inspeção a que tinham direito, e nada de uma resposta. Ligaram para a Controlar para pedir uma solução e então foram agendados para uma nova inspeção em um posto diferente da primeira. Aí, passou. 


Possivelmente, nesse outro posto, os inspetores têm ouvidos menos sensíveis. Deve ser onde são aprovados os caminhões de coleta de lixo, as ambulâncias e os helicópteros.


Um outro absurdo que chegou ao meu conhecimento, protagonizado pela Ridicolar, foi o de uma senhora, quando, depois do inspetor solicitar que ela destravasse o capô do veículo, ele simplesmente olhou para o motor e disse: "aquele cabo está fora do lugar" e reprovou o carro, diante de uma tiazinha atônita que, o máximo que entende de cabo é o do guarda-chuva ou da faca da cozinha. A cena foi testemunhada e descrita por um amigo que vinha no carro de trás, que deu sorte e foi aprovado.


Já o meu calvário ainda não acabou e lá se vão dois meses de luta. Primeiro, levei o Jorge (é como um membro da família - tanto é que, para o meu filho de 2 anos, tem o "carro-mamãe", o "carro-vovó", o "carro-vovô" e o Jorge, não tem "carro-papai") ao mecânico no início de outubro e disse: "faça o que precisar para ele passar na inspeção veicular", sem muita preocupação, já que no ano passado, em 2010, ele passou na primeira, sem problema algum.


As pessoas ficam pasmas como um veículo fabricado no Japão em 1995 não tem um único ponto de corrosão na lataria ou embaixo. Eles passam aquele espelhinho embaixo e não tem nada de errado. Existe um fã clube mundial, comunidades no Facebook e no Orkut, e uma página (www.feroza.com.br) com o mapa do Brasil e a localização de todos os proprietários apaixonados desse 4x4 (com reduzida, ar condicionado, direção hidráulica, vidros elétricos, três ajustes de suspensão, teto solar e teto traseiro removível) no País. Tem fotos de Ferozas na selva da Costa Rica ou da Indonésia, na neve dos Alpes italianos ou dentro d'água nas praias da África do Sul. Ele não enferruja porque o aço do qual foi feito, no Japão, recebeu a adição de zinco na liga.


O Jorge tomando uma "ducha neve" num posto, feliz da vida. É uma judiação a provação que a Ridicolar e o Nunkassabe estão fazendo ele passar.
Aí o mecânico fez lá uma coisa ou outra e apresentou a conta de R$ 245. Paguei a tal da taxa de R$ 61,80 e agendei o dia da inspeção. Fui tranquilo, com orgulho do Jorge. Os inspetores passaram o espelho embaixo procurando ferrugem, nada, colocaram um tapete para ver se pingava óleo, nada, aceleraram, nada, e ligaram a um computador cheio de gráficos e porcentagens. Resultado: reprovado. 


Dos seis quesitos investigados pelo computador, o Jorge reprovou em um: emissão de hidrocarbonetos em marcha lenta. O limite é 700, o Jorge marcou 1.400 em marcha lenta. Se pisasse fundo no acelerador, ele ficava muito abaixo do limite. O inspetor, candidamente, me sugeriu que eu levasse o Jorge a um mecânico (achei o máximo ele não ter sugerido que eu o levasse a uma benzedeira). Foi quando eu mostrei a nota recente do mecânico, só para ele ver que eu tomei minhas precauções, não fui lá de mão abanando. Mas, já estava lascado: tive que voltar ao mecânico, e falei: te vira para resolver o mistério. Ele coçou a cabeça, mexeu daqui, mexeu de lá, trocou cabos de velas e mais não sei o que. A conta: mais R$ 400.


Antes de voltar à Controlar, resolvi conferir numa oficina da Porto Seguro, que tem o computador com o mesmo teste. Fiz uma pré-inspeção veicular lá. Resultado: melhorou, mas ainda não estava bom. A emissão de hidrocarbonetos em marcha lenta baixou para 1.100. O que fazer? Vamos, Jorge, vamos a outro mecânico, uma desconhecido, mas um que já tenha o mesmo teste da Controlar.  


No dia seguinte, o mecânico desconhecido cobra mais R$ 200 e entrega um laudo igual ao da Controlar e ao da máquina da Porto Seguro, com tudo pra lá de bom: emissão de hidrocarbonetos baixou para 355. Maravilha. O resto, continuava bom. Vamos, Jorge, vamos fazer outra inspeção na Controlar.


Lá na Controlar, o mesmo salamaleque de antes: passam o espelhinho por baixo para procurar ferrugem novamente (realmente, em duas semanas pode ter enferrujado, certo?), colocam o tapete para ver se pinga óleo e... os inspetores me chamam para dizer que ele está emitindo uma fumaça azulada e está reprovado. O Jorge não passou sequer no teste do computador para verificar que o defeito apontado anteriormente foi sanado. Arrumaram outro defeito. Um que ninguém viu antes, nem na Descontrolar, nem na Porto Seguro, nem pelos mecânicos, nem na Conchinchina. Pelo menos a fumaça do Jorge é azulada, para contribuir com uma cor que não seja cinza para esta cidade.


Eu reclamei para o inspetor, argumentando que eu levei o Jorge ao mecânico e estava tudo OK, mostrei o laudo. Aí ele, como se fosse um ET, me aconselhou: "seria melhor o próprio mecânico vir passar o carro na inspeção, para ele mesmo ver qual o defeito a ser corrigido". De qual planeta ele saiu? Do planeta Ridicolar? Ele acha que o mecânico de lá da Santa Cecília ou da Aclimação vai fechar as portas da oficina, dispensar os outros clientes, passar o dia no trânsito, para levar o Jorge em um posto da Ridicolar lááááá onde o Judas perdeu as botas? Eu vou pagar o dia de trabalho dele? Quem ensina esse ET a falar abobrinha?


O mesmo carro japonês foi vendido com nomes diferentes dependendo do país: nos EUA ele é conhecido como Rocky, no Europa é Sportrak e na América Latina, Austrália e Nova Zelândia é Feroza.
Estou me sentindo como um peão de um jogo de tabuleiro. Alguém jogou os dados e eu tenho que voltar para a casa um, tudo de novo. Tenho que pagar outra taxa de R$ 61,80 e ir atrás de algum milagre para o Jorge. Talvez eu o leve à Igreja de São Cristóvão. Eu preciso do documento do licenciamento, que já está pago, mas não sai se o Jorge não passar na inspeção. Acho que isso não está Direito.


Esse negócio da inspeção veicular parecia ser uma coisa boa e correta, afinal, eu sou verde. Aplaudi a ideia. No ano passado, fiquei muito orgulhoso do Jorge. Ele levou o selinho do 10 no parabrisa sem problema algum. Mas, como tudo que parece justo no Brasil, acaba infernizando a vida da gente. Lembram da CPMF? Não parecia justo, um dinheiro para melhorar a Saúde? Melhoru a saúde de quem? No início, a ideia parecia boa. Essa Descontrolar é a mesma coisa. Virou um esquema. É só acompanhar as últimas no noticiário. Alguém, alguma hora, iria enxergar. Não se pode enganar a todos todo o tempo.




Culpa do Serra. Never more, Rosé. Ele assinou um documento em cartório que iria cumprir o mandato todo na prefeitura. Não cumpriu o que prometeu. Estrago feito, o Nunkassabe ainda passou na inspeção das urnas e foi reeleito. Existem três explicações para isso, duas empíricas e uma científica: a primeira explicação é o uso da "máquina administrativa" para cavar a reeleição, afinal, funcionário público e suas famílias fazem qualquer coisa para não perder o emprego. A segunda é que o povo se acostuma até com um bode fedorento na sala. Depois de um tempo com ele, se ele for tirado, sentem falta. Chama-se inércia. Agora a explicação científica: síndrome de Estocolmo (as vítimas se apaixonam pelo sequestrador depois de um longo convívio, que não deixa de ser a mesma história do bode no jargão da Psicologia). 


Agora, a Ridicolar quer me extorquir mais dinheiro e (claro) apoia o Nunkassabe (aquele que chamou trabalhadores de "vagabundos" aos berros) na criação de seu novo partido político, com fichas de filiação assinadas pelas mesmas pessoas várias vezes ou pessoas que já morreram ou pessoas que são analfabetas.  Não pode exigir correção quem não pode dar exemplo.


Continue azul, Jorge. Vamos à luta. Você é japonês e não desiste nunca.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

I'm Gay, Marvin Gay

"What's going on?" Um dos meus alunos de inglês apareceu com uma dúvida a respeito do vocabulário da letra da música do Marvin Gaye. "O que está acontecendo?", seria a tradução do título. Ela foi composta em 1970, inspirada no irmão mais velho dele que voltava da guerra no Vietnã, e lançada apenas em 1971, a contragosto da gravadora Motown, que não queria arranhar a imagem de "símbolo sexual" de Marvin com canções políticas e de protesto.


O nome dele mesmo era Marvin Gay Junior e adotou a grafia do nome artístico de Marvin Gaye. Ele foi morto com um tiro pelo próprio pai, em 1984, na véspera do seu aniversário quando completaria 45 anos. Marvin deu de presente, quatro meses antes, o revólver que o matou ao Marvin Gay pai, que foi ministro da igreja Adventista do Sétimo Dia e com quem teve problemas de relacionamento a vida inteira.


Na época em que Marvin Jr. nasceu, em 1939, o sobrenome dele era apenas uma palavra, sinônimo de "happy", "glad", "content" e "joyful", ou seja, feliz. O pai dele, idem. Hoje, a palavra virou definição de orientação sexual, de estilo de vida, de classificação de moda, de tendência de cabelo, de especialização de turismo, de afirmação cultural e até de segmentação de publicações e seções das páginas de conteúdo na internet. Eu abro o UOL no domingo e lá está a seção de ESPORTE, a de ENTRETENIMENTO etc etc e, entre várias outras "GAY". Virou uma editoria. Deve ser um jornalismo especializado. Logo, vai ter essa disciplina nas faculdades de comunicação.


Virou moda ser gay. Todo dia mais alguém "sai do armário" e se declara, como o Zachary Quinto, que fez o "Sylar" na série de TV "Heroes" e reencarnou o "Spock" em "Star Trek". Quem é hétero anda até constrangido, se sentindo deslocado, principalmente no meio artístico e nas redações. Logo logo, vão ter se se firmar, fazer uma passeta do orgulho hétero na avenida Paulista, conseguir um suplemento específico na Folha de S. Paulo e encontrar pacotes turísticos e hotéis que os aceitem.




Já na época dos Trapalhões, os Marvins sofreriam algum constrangimento (ou confusão) ao se apresentarem com o sobrenome. Didi chamava Dedé, Zacarias e Mussum de "rapazes alegres", ou seja, "gays", como forma de deboche. Isso seria "bulling" hoje. Aliás, tudo é. Até o Cebolinha e o Cascão pentelharem a Mônica chamando-a de dentuça e gorducha é "bulling". Parodiando Marvin Gaye, "what's going on?" Que chatice.


Não se pode chamar ninguém de veado mais. Talvez nem os veados, os animais. É politicamente incorreto, é ofensivo, é preconceito. Entre eles, eles podem se chamar de "bicha" que tudo bem, mais ninguém. No Rio Grande do Sul e em Portugal, nos aeroportos, agências bancárias e bilheterias de cinemas, eles continuam "entrando no rabo da bicha" porque lá significa "pegar o final da fila". 


Flagraram um pastor e um veado se beijando dentro do carro!


Eu tenho amigos homossexuais, mas eles não precisam colocar essa condição para serem meus amigos. Eu os aceitaria como amigos mesmo que não fossem. E acho que eu também não preciso ser gay para eles me considerarem amigo. Gay não deveria ser uma categoria de pessoas, mas apenas uma intimidade. Se eu gosto de sexo por cima, por baixo, do lado, na cama, debaixo da cama, no mato, oral, manual, visual ou o escambau, é assunto meu. Acho que não preciso declarar minha opção, escrever na testa, para me apresentar para as pessoas antes de conversar sobre as coisas do mundo, tipo: "olá, prazer, eu gosto de quatro, e você?" Como se todo munto estivesse interessado só nisso, como se fosse isso que qualificasse as pessoas.


Do jeito que a coisa vai, o gay vai ter cota de admissão nas escolas, nas universidades. E isso será uma atitude preconceituosa, como eu acho que é contra os negros (ops, afro-descendentes). É uma maneira de dizer que eles são diferentes, deficientes, precisam de ajuda, requerem abrandamento das regras. O gargalo é sócio-econômico e cultural e não a cor da pele ou o que se faz com o ânus.


Por falar em cotas nas escolas, a educação brasileira também merece um "what's going on". Uma piada sensacional que, embora comprida, resume tudo. Ela me foi enviada pela minha amiga Lucinéia Nucci (e também a foto do pastor e do veado no carro). Olha só que coincidência: ela foi minha vizinha de condomínio durante quatro anos, até julho deste ano, quando eu me mudei de lá, e só este ano nós descobrimo que a irmã dela, Linette, foi minha colega na faculdade de jornalismo lá na Universidade Estadual de Londrina. Mas vamos à piada (que dá vontade de chorar):


A Evolução da Educação:

Antigamente se ensinava e cobrava tabuada, caligrafia, redação, datilografia...
Havia aulas de Educação Física, Moral e Cívica, Práticas Agrícolas, Práticas Industriais e cantava-se o Hino Nacional, hasteando a Bandeira Nacional antes de iniciar as aulas...

... Leiam o relato de uma Professora de Matemática:

Semana passada, comprei um produto que custou R$ 15,80. Dei à balconista R$ 20,00 e peguei na minha bolsa 80 centavos, para evitar receber ainda mais moedas. A balconista pegou o dinheiro e ficou olhando para a máquina registradora, aparentemente sem saber o que fazer.
Tentei explicar que ela tinha que me dar 5,00 reais de troco, mas ela não se convenceu e chamou o gerente para ajudá-la.
Ficou com lágrimas nos olhos enquanto o gerente tentava explicar e ela aparentemente continuava sem entender.
Por que estou contando isso?
Porque me dei conta da evolução do ensino de matemática desde 1950, que foi assim:

1. Ensino de matemática em 1950:
Um lenhador vende um carro de lenha por R$ 100,00.
O custo de produção é igual a 4/5 do preço de venda.
Qual é o lucro?

2. Ensino de matemática em 1970:
Um lenhador vende um carro de lenha por R$ 100,00.
O custo de produção é igual a 4/5 do preço de venda ou R$ 80,00. Qual é o lucro?

3. Ensino de matemática em 1980:
Um lenhador vende um carro de lenha por R$ 100,00.
O custo de produção é R$ 80,00.
Qual é o lucro?

4. Ensino de matemática em 1990:
Um lenhador vende um carro de lenha por R$ 100,00.
O custo de produção é R$ 80,00.
Escolha a resposta certa, que indica o lucro:
( )R$ 20,00 ( )R$ 40,00 ( )R$ 60,00 ( )R$ 80,00 ( )R$ 100,00

5. Ensino de matemática em 2000:
Um lenhador vende um carro de lenha por R$ 100,00.
O custo de produção é R$ 80,00.
O lucro é de R$ 20,00.
Está certo?
( )SIM ( ) NÃO

6. Ensino de matemática em 2009:
Um lenhador vende um carro de lenha por R$ 100,00.
O custo de produção é R$ 80,00.
Se você souber ler, coloque um X no R$ 20,00.
( )R$ 20,00 ( )R$ 40,00 ( )R$ 60,00 ( )R$ 80,00 ( )R$ 100,00

7. Em 2010 ...:
Um lenhador vende um carro de lenha por R$ 100,00.
O custo de produção é R$ 80,00.
Se você souber ler, coloque um X no R$ 20,00.
(Se você é afro descendente, especial, indígena ou de qualquer outra minoria social não precisa responder pois é proibido reprová-los).
( )R$ 20,00 ( )R$ 40,00 ( )R$ 60,00 ( )R$ 80,00 ( )R$ 100,00

E se um moleque resolver pichar a sala de aula e a professora fizer com que ele pinte a sala novamente, os pais ficam enfurecidos pois a professora provocou traumas na criança.
Também jamais levante a voz com um aluno, pois isso representa voltar ao passado repressor (Ou pior: O aprendiz de meliante pode estar armado).